sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Não há


Quando não se espera mais nada. Quando a vida não é mais vida.  Se depara com obstáculos intransponíveis. Com uma completa ausência de si mesmo. Nada faz sentido e tudo ao seu redor parece simplesmente nada. É nesse momento que pensamentos adormecidos despertam. Nesse momento os medos mais atávicos despertam aos berros, puxando-te para um abismo sem fim. Não há amor, ódio, desejos, desvarios. O que sobra então? Seus fantasmas, suas negações e tudo o que já se viveu. O olhar está parado, o coração continua bombeando sangue porque é sua função natural. Não se foge mais de espelhos, agora eles só refletem um corpo vazio, um pedaço de carne que aguarda a sepultura. Não, não irás tentar novamente o suicídio, até porque é pura perda de tempo. Já está morto. O que caminha por aí é um tipo de autônomo, uma cópia mal feita e na verdade não faz diferença se come, dorme, toma banho ou caminha pelas ruas da cidade. Olhas tudo com uma distância desesperadora. E por alguns instantes se permite a tentativa de procurar uma fuga, uma escapatória até que se dá conta de que não vale a pena. E simplesmente pára o vão movimento de levantar as mãos. Não há mais lágrimas nem soluços. Há sim um travo na garganta. Um nó que não se desfaz.  Quando se aventura para fora da sua concha e nota o sol ou mesmo a lua, onde antes via beleza e enlevo agora só vê o vazio. Algo foi esmagado com o passar dos anos, sorrisos quebrados e lágrimas desperdiçadas te trouxeram aqui. Um lugar devastador, um deserto interno tão vasto que se perdeu de si mesmo. E por mais remédios que ingira ou qualquer coisa do tipo, sabes que são somente paliativos que só resolvem por poucas horas. Quando o efeito passa tudo volta em redundância é como um rato preso dentro de uma caixa transparente onde por mais que se busque a saída, nada há além de paredes e tetos que aprisionam. Por vezes te perguntas onde estão os sentimentos que habitavam esse ser? Em que ponto da jornada perdeu a si mesmo? A resposta? O silêncio esmagador. Não há salvação, não há esperança. Restou o que então? Por que continuar aqui? Novamente o silêncio reverbera. E sua já tão mal falada sanidade vai escorrendo pela ampulheta. Esperas somente o final da peça. Sem aplausos e sem vaias também. Simplesmente espera pelo ponto final que nesse exato momento nunca chega. Não há nada que faça todo esse não sentir, esse desespero sumir. Não há vida mas também não há morte. Pobre desgraçado nada há aqui para ti ou mesmo ali. Nada há, não há nada.

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