terça-feira, 19 de maio de 2015

Dois


Em algum canto perdido na história houve alguém que amou e foi amado, quase até a insanidade. Por motivos enevoados esses seres foram separados. Cada um deles seguiu um caminho. Levando no mais profundo do ser um sentimento inolvidável e que não conseguiam exprimir por mais que tentassem. Cada um deles a seu modo fez o possível e o impossível para externar o que sentia. Usando a música, a poesia, a pintura, algum tipo de arte que os aproximava. Mas aproximava do que? Muitas vezes tiveram vislumbres um do outro. Um perfume, um gesto, uma situação, mas não passava disso. Com o passar do tempo foram sufocando esse sentimento e fazendo de conta que não faltava nada em suas vidas. Mas chega uma hora em que se tem de encarar o medo, a solidão e o desamparo. Quado soa essa hora não há uma rota de fuga. É algo interno que se expande, que exige atenção. Cada um deles reage de uma forma. Um diz para si mesmo que tudo não passa de loucura, que esse anseio que o persegue é como a sua própria mente o castiga, criando fantasias inacessíveis. Não permitindo que encontre seu caminho, seu lugar em qualquer lugar que esteja. Sempre se sentindo um estranho em todo e qualquer lugar. O outro ser se fecha em copas, negando também a existência desse tormento, desse labirinto de sentimentos. Por vezes um acorde, uma poesia ou uma pintura faz com que seus corações se encontrem. Esses momentos preciosos e raros são o que os mantêm vivos. Existe um universo que os aproxima e outro que os repele. E eles terão de decidir qual desses universos querem habitar. Mas como fazer tal escolha, se tudo é tão improvável? Como escolher qual caminho seguir quando todos ao redor os observam como se fossem insanos? Em noites sem lua com o céu inteiramente negro, eles se sentem próximos como se a Noite fosse a mãe que os abriga contra tudo e todos. Em noites assim por pouquíssimos minutos eles captam a existência um do outro, Há uma comunicação entre suas almas perdidas e por alguns instantes encontram a paz e o amor perdidos. Então sem que eles esperem a comunicação é cortada e caem no vazio, com o sentimento de incompletitude. O desespero quase arrebenta seus peitos, a dor é insuportável e talvez por isso eles busquem tudo o que os desconecta, os afasta. Tudo para manter a sanidade, para encarar mais um dia. Por vezes eles se encontram no sonhar, e conversam como antigamente. Ao despertarem têm o semblante sereno e estão prontos para seguir em frente. Intuindo que um dia, em algum lugar, em um universo qualquer eles enfim se encontrarão. É isso que os mantêm desse lado da barreira, que faz com que respirem fundo e continuem a jornada. Seria isso a esperança? Ou simplesmente o amor que pulsa em uníssimo em seus corações? Talvez nem mesmo eles saibam a resposta. Mas seguem em frente, mesmo tropeçando e caindo. Eles seguem em frente.

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