terça-feira, 4 de março de 2014

Estranhos


Ele caminha pela noite sem parada ou descanso. Não se lembra quem é, ou, onde está. Nada que vê parece familiar. Sente no peito uma dor avassaladora. Estranha a lua e as estrelas. Força sua mente a lembrar, tenta de todas as formas recordar algo, e nada. O que consegue é uma dor de cabeça enorme. Tem questões bailando em sua mente:
- Onde estou? Quem sou? O que aconteceu?
E nenhuma resposta. Nada! Ele se sente repleto de silêncio. Um silêncio arrebatador e ato contínuo começa a contar em voz alta. Conta seus passos perdidos e sem direção. Se cansa rapidamente e passa a observar a sua volta. Vê casas, prédios e avenidas. Carros que passam buzinando, pessoas que andam com pressa, como se estivessem atrasadas para alguma coisa. De repente uma lembrança passa por ele:
- Elas estão indo ou voltando do trabalho.
Os sons ensurdecedores o deixam transtornado, aquela multidão o está sufocando. Ele caminha mais rápido, praticamente correndo mesmo não sabendo para onde vai. Só sabe que tem de se afastar deles. Que aquelas pessoas de uma forma que ainda não entende sugam suas energias o deixando exaurido. Se vê em frente a uma estação de metro. Para e fica indeciso.
- O que devo fazer?
As pessoas empurram, esbarram e ele se volta e força a saída. Se sente ameaçado e de modo estabanado enfrenta a aglomeração até sair daquele antro de insanidade. De seres que não pensam e só seguem as regras. Ele de novo se pergunta:
- Como sei disso?
No saguão da estação encontra um canto e ali fica durante um bom tempo somente observando o ir e vir das multidões. Sente o coração pesado. Seus olhos procuram por um rosto conhecido, por um par de olhos que o reconheçam também mas, o que encontra são olhos vazios, nada além disso. Não sabe depois de quanto tempo se cansa de estar ali e sai. A afluência das multidões diminuiu consideravelmente. Sai do seu canto de observação e se dirige as escadas, ganha novamente a noite. Sai andando. Sem aviso suas lembranças vão retornando, o deixando perplexo. Ele agora sabe seu nome, onde trabalhava, os nomes de seus familiares, o nome a namorada. E outras coisas. Mas mesmo recordando tudo parece irreal. Seus passos o conduzem até sua moradia. Fica ali olhando e não sente absolutamente nada. A casa que vê a sua frente não lhe transmite nada. Nenhum sentimento. Rebuscando a memória vê cenas de pessoas entrando e saindo, risos, lágrimas. Mas é como se ele não estivesse ali. Como se não fizesse parte daquela realidade. Isso o assusta mais ainda.
- Se essa é minha casa, por que não me sinto em casa? Se essas pessoas fazem parte da minha vida por que não sinto isso? As perguntas o fazem se sentir mais perdido e também agoniado.
- De que adianta me lembrar do meu nome e onde moro se nada disso me parece real? Se nada disso parece fazer parte da minha pessoa? Preciso encontrar algo que me ajude a entender tudo isso. Decide entrar, dá uns passos e sobe as escadas. Quando está a ponto de tocar a campainha, a entrada lhe é franqueada. Olha em volta para saber quem lhe abriu a porta e não vê ninguém. Se sentindo um invasor adentra a casa. Vê o corredor, e instantaneamente se lembra das entradas e saídas apressadas, das risadas e dos amassos trocados com a namorada em tempos passados. Mas sãos lembranças passageiras. Ele segue em frente. Está na sala. Vê os sofás e poltronas, as estantes e abajures. Sente o peito se agitar, relembrando quantas noites passou ali, lendo ou ouvindo música. E um sorriso se espalha pelo seus rosto. No canto mais obscuro da sala nota que alguém está sentado vai se aproximando aos poucos, vê uma poltrona em frente a pessoa sentada e sem dizer nada se senta também. Ela está com um livro pousado em cima de suas pernas. Não olha para ele e nem mesmo faz um gesto, permanece em silêncio. Ele se agita e percebendo que a mulher não dirá nada começa:
- Onde estou? Quer dizer sei que estou no que era minha casa antes, mas não sinto como se fosse a mesma coisa. Então ela o olha de frente. O que ele vê lhe dá arrepios.
Os olhos da mulher parecem não ser reais, são de uma tonalidade de negro tão profundo que é como se roubassem toda a luz ao redor dela. Ela fecha os olhos e começa a falar, parece que recita poesia ou algo assim. Ele não sabe dizer se ela é bonita ou não. Se é nova ou velha. Mas passado o primeiro susto, sabe que ela não lhe fará mal. Embora ela esteja falando, ele não ouve as palavras. Só sente as vibrações emanadas dela. Primeiro sente o medo do que aconteceu, depois a solidão, a tristeza e o desamparo. E acima de tudo isso, sente o pulsar daquele espírito, sente o seu próprio responder aquele pulsar. Sente que a conhece sem conseguir precisar de onde e muito menos como isso possa ser verdade. Balançando a cabeça foca seu olhar nela. Ela se veste com calças jeans, camiseta azul e tênis, ele sorri, é praticamente a mesma roupa que ele usa, variando somente a cor da camiseta, a dele é branca. Força-se a ouvir o que a estranha diz, embora não seja estranha. Ela continua falando:
- Foi há muito tempo. Embora todos eles ainda façam as mesmas coisas, sair de casa para trabalhar, voltar, tomar banho, jantar, dormir, para recomeçar no outro dia. Tudo parece-me fora de lugar. Nada é mais como antes. E embora eu já tenha tentado entender ainda não cheguei a uma conclusão. Quando observo os outros me assusto. Eles parecem manadas. Que são controlados por alguém que não está aqui. É tudo muito estranho, e me sinto perdida. Ao tentar conversar com eles. Eles me dizem que estou enlouquecida. Que tudo sempre foi assim. Que todos nós vivemos nossas vidas. E eu os vejo como se fossem loucos, e eles me veem da mesma forma.
Ele fica ali olhando para aqueles olhos tão profundos sem saber o que falar, e se dizendo que já teve a mesma sensação.
- Pode me contar o que aconteceu? Por que estou me sentindo tão perdido e ao mesmo tempo tão distante dessas pessoas?
Ela olha para ele mas é como se não o estivesse vendo. Suspira e começa um monólogo:
- Já faz um tempo que o mundo mudou. Não sei exatamente como aconteceu, só sei que um dia estava apartada de todos, poucos são os que conseguem me ver e ouvir. Acredito que o mesmo aconteça com você, já cheguei a pensar que atravessamos o manto entre a vida e a morte. Mas se assim fosse, penso que não teríamos corpo sólido, não sentíriamos fome e coisas assim. Andei por essa cidade durante várias noites. Encontrei outros comos nós e todos confusos e arredios. Tentei conversar, alguns aceitaram e outros fugiram ou me atacaram. Quando percebi que de nada adiantava, sai em busca de um canto para dormir, para poder me alimentar, coisas cotidianas. Algo me trouxe aqui. Ao chegar não vi ninguém, a casa parecia abonadonada. Encontrei as chaves escondidas em um vaso, perto da porta da entrada. Passando para o lado de dentro fui assaltada por visões e sons. Reconhi as pessoas que já habitaram essa casa. Mas havia alguém que mesmo fazendo parte desse cenário me era vedado ver. No começo fiquei irritada, depois fui compreendendo que essa pessoa talvez estivesse na mesma sntonia que eu. O tempo passou e nada de novo acontecia. Encontrei os livros e cds, e me fascinei pelo gosto do dono da casa. Éramos compatíveis em gostos literários e musicais. Andei pela casa, tentando encontrar fotos, videos. Realmente encontrei mas as imagens onde você aparecia, todas elas, estavam borradas. Por fim desisti de querer entender. Fiz da sua a minha casa. Ainda não sei o que aconteceu com as pessoas ou talvez com alguns de nós. Mas minha teoria é que estamos vivendo em alguma dimensão ou universo paralelo. Que de alguma forma atravessamos um dos véus, ou algo assim... Não sei se consegue entender o que estou tentando falar.
Ela se cala e olha para ele com insitência, esperando uma resposta. Ele meneia a cabeça e começa a responder.
- Já pensei nessa hipótese também, mas, na verdade em um primeiro momento pensei que estivesse morto. Mas algo me dizia que não era isso. Como você tambem andei pela cidade. Vi pessoas e mais pessoas, carros, barulho, mas não vi ninguém como você ou eu. O mais interessante é que quando as pessoas se aproximavam de mim, sentia como uma repulsa, talvez não seja essa a palavra certa, talvez fosse uma vibração diferente. Quanto mais pessoas estavam pertode mim mais eu queria estar longe de todos elas. Tive um momento de pânico no metro. Pensei que fosse sufocar em meio aquela multidão. Tive de me esforçar muito para conseguir me afastar. Chegando em um canto fiquei ali, observando o ir e vir e me perguntando como eles conseguem fazer sempre as mesmas coisas e não quebrar? Mirava os olhos deles e não percebia a chama da vida somente em alguns e mesmo assim praticamente apagada. Aquilo foi me enchendo de medo. Depois de não sei quanto tempo sai dali e rumei para casa. Chegando aqui, vi a porta trancada e logo após, estava entrando no que era minha casa, reconheci no mesmo instante, mas não era minha casa. Estava confuso, sabia que esse lugar havia sido meu lar mas já não o sentia assim. Quando te vi sentada o que primeiro me chamou a atenção foi o livro em seus joelhos e depois seus olhos quando nos encaramos. Por acaso notou como seus olhos são mais escuros do que o normal? Como se absorvessem a luz, como se capturassem ou sei lá...
Ela sorri e concorda, na sequência diz:
- E você já notou como os seus olhos espalham a luz? Talvez por serem azuis, eles expandem a luz que chega até você.
- Então somos o outro lado da moeda.
- Algo por aí.
- Nos completamos.
- Talvez. - Ela diz isso fechando os olhos.
- Por que está de olhos fechados?
- A luz sempre me causou dor de cabeça. - E sorri ele por sua vez responde:
- A escuridão sempre me deu medo. Mesmo já adulto eu sempre procurei estar em lugares iluminados...
- Posso entender isso.
- E agora o que faremos? Ele se aproxima e coloca a mão no braço dela.
- Não sei.
- Acho que se nos completamos, se somos um a outra face da moeda do outro, podemos descobrir o que está acontecendo conosco.
- Acredito nisso tambem.

Eles ficam ali sentados olhando um para o outro, com ela por vezes fechando os olhos por alguns momentos. Milhares de pensamentos invadem ambas a mentes. Mas por enquanto os dois preferem tecer suas conjecturas em silêncio, somente em suas próprias mentes.

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