terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Olhar


Adormeço. Sonho. Acordo e trato de esquecer tudo o que se passa em meu espírito. Necessito levar a vida adiante. Outros precisam de mim. Embora em meus sonhos, ele esteja sempre presente, algo vem mudando, vem se transmutando. Não sei bem o que. Fujo dos sonhos, justo eu, fujo deles no agora. Muitas vezes vou dormir quando o corpo e a mente já não suportam mais o barulho e o cansaço. É uma luta inglória. Sei que uma hora ou outra ele vai adentrar meus sonhos. Então me armo, me escondo, me refugio em cantos obscuros em mim mesma. Essas vãs tentativas tem me mostrado o quanto ainda não conheço sobre mim mesma. Por vezes me quedo em algum lugar, silêncio. Um silêncio que me enerva. Sinto que ele me observa, que se diverte as minhas custas. Grito, esbravejo e nada! Somente aquele riso que chega até mim trazido pelo vento. Corro em disparada. Não quero ouvir. Meu coração está acelerado, a boca seca, o corpo treme. Novamente o riso. Sarcasmo. Ironia. De repente estaco. E me pergunto o que estou fazendo? Estou fugindo dele ou indo ao seu encontro? Observo a mim mesma parada à beira do precipício. Fico ali admirando a noite e o abismo. Qual será maior? Suspiro. Sento ali e fico a balançar as pernas, como se fosse uma menina. Então do nada vem a vontade de rir. Solto os cabelos e ato contínuo, rio, rio de mim mesma, do mundo, dos loucos, dos normais, dos santos, dos anjos e dos demônios. Rio da criação e também da destruição. Se tudo o que vemos não é real, então fica a pergunta o que é? Se tudo o que pensamos pode ser interpretado de mil maneiras, como saberemos o que é verdade? Novamente ouço aquele risada sarcástica. Mas agora eu estou rindo também. O medo foi banido e ficou somente a vontade de ultrapassar limites e descobrir ou redescobrir o universo. Se tudo é ilusão, os deuses também são. Se tudo é permitido, então porque devo me prender ao que não me agrada? Por que seguir regras que não são minhas? Ouço ao longe um cântico que vai preenchendo o espaço. Não há palavras somente a melodia. Agora já não estou rindo, estou enebriada pela melodia. De repente o abismo e a noite se fundem. Não há pelo menos na minha percepção diferença entres eles.  Estou deitada de braços abertos sentindo a pulsação do universo, do planeta. Deixo de ser eu para fazer parte do todo. Por alguns instantes me sinto completa. Sinto como se houvesse encontrado meu lar. O riso sarcástico cessou, agora há um murmúrio suave, como de amantes satisfeitos e serenos. Quando sinto alguém tocar meu rosto. Vejo olhos escuros mirando os meus. Somos como corpos celestes que gravitam na mesma frequência. Onde há momentos de atração e repulsão. Aqueles olhos me fascinam e sem atinar estamos entrelaçados, plenos e entregues a nós mesmos. Pulsamos amor e vida. Em um compasso por vezes desencontrado, até que estendemos as mãos. Elas se tocam e tudo se encaixa. Tudo passa a ser nosso e não meu ou dele. Mas eu sei que em algum lugar está aquele sorriso irônico e sarcástico, esperando para ser liberto. Como sei? Simples eu também o tenho em mim. Somos parceiros e por vezes nos antecipamos ou nos atrasamos para que o outro tenha a sua vez. Assim vamos viajando pelos mundos, indo e voltando mas, sempre nos buscando e encontrando. De tal modo que mesmo distantes, intuímos onde o outro está ou como se sente. Por isso as vezes choro ou sorrio sem motivos aparentes. Por ter esse sentimento em mim, mesmo quando estou arisca com tudo e todos. Ao me lembrar daqueles olhos, me refugio em minha tela mental, em meus sonhos para simplesmente o sentir aqui. 

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