sexta-feira, 1 de março de 2013

Desejo


Desejo está em todos os lugares e ao mesmo tempo em nenhum. Difícil decifrar quem ou o que é esse ser.  A muitos ela aparece como uma bela mulher envolta em mistérios e vontades não se sabe se dela ou deles. A outros ele surge como a realização do seu mais profundo sentimento. Desejo tem muito a ver com Lúcifer. E detesta o Senhor do Sonhar. Engraçado porque eles se entrelaçam constantemente, talvez daí venha seu ódio. Ou talvez ela o deteste por ele manter uma conduta. Ela por ser quem é não tem como manter sempre a mesma linha de conduta ou pensamento. Certa feita em um templo antigo de uma cultura já esquecida Desejo foi chamada e por não ter nada melhor a fazer aceitou o convite do sacerdote. E aqui começa a nossa pequena estória sobre ela que muitos dizem ser ele. Nosso sacerdote a vê como uma bela mulher, na realidade ele a vê como uma deusa. Estava anoitecendo quando ele começou a invocação na esperança de ser atendido. O templo ficava no topo de uma montanha, de um lado o mar e do outro o vale. Era realmente um lugar encantador. Era dedicado as deusas do amor e afins. O sacerdote estava apaixonado ou pensava estar mas o objeto do seu desejo não lhe correspondia, por isso decidiu invocar Desejo.
- Tu que sabes o que vai dentro do meu coração, que sabes o que desejo, aceita minha oferenda e faça com que ela me ame. Tu que conheces tudo sobre amor e desejo ajuda-me a solucionar essa questão.
Enquanto o sacerdote fazia sua conjurações Desejo sorria, aquele sorriso arrebatador e cínico, cheio de malicia e sabores. Mesmo já estando presente deixou que o homem continuasse a sua ladainha. Era divertido pensou ela. Enquanto ele não parava de falar, queimar incenso e todo o resto ela ficou ali saboreando o desespero dele e rindo por saber que o que ele queria logo não o satisfaria mais... Decidiu então se materializar ou algo assim para eles pudessem conversar.
- Por que me chamas com tanta insistência? - Pergunta Desejo com os olhos fuzilando o sacerdote.
- Preciso de sua augusta ajuda Divindade, estou enamorado por uma mulher que me ignora. E não sei mais o que fazer.
- O que já fizeste? - Novo sorriso estonteante mas agora com um toque de sadismo.
- De tudo! Joguei encantamentos. Tentei entrar nos sonhos dela. Travei conhecimento no submundo e nada.
- Conseguiste entrar nos sonhos dessa mulher?
- Não! Só uma vez mas fui expulso.
- Interessante. Mas sacerdote não tiveste treinamento para conseguir seus intentos?
- Sim. Acontece que ela também teve esse tipo de treinamento. E a cada dia que passa mais a desejo.
- Evidente que sim. A desejas por não a teres. Quando a tiveres não a desejaras mais.
- Nunca vou amá-la sempre.
- Sacerdote! Sei muito bem do que estou falando. Desejo é algo efémero. E vocês, humanos, nunca estão satisfeitos com o que tem. Ao conseguir seu Desejo o relegam a segundo plano e partem para o próximo Desejo.
- Divindade com essa mulher será diferente. Penso nela o dia e a noite. A desejo com tal ferocidade que me espanto.
- Então talvez seja melhor que ela continue sendo somente desejada.
- Por que? Morrerei se não a tiver em meus braços.
- Quanto exagero caro sacerdote. Quantas vezes já desejou algo que não obteve?
- Algumas vezes.
- Como se sentiu?
- Péssimo, derrotado.
- Só isso?
- Não entendo.
- Quando o homem não consegue o quer, não tem o objeto desejado, ele só se sente péssimo e derrotado? Vocês são mesmo patéticos. Ele deve ter a força de vontade para conseguir o que quer. Se não consegue dê um outro jeito. Mas não! O que vocês fazem? Desistem, por isso seus desejos são pequenos e vãos.
- Divindade me ensine a desejar então. A conseguir o que desejo.
- O que eu ganho com isso sacerdote?
- O que pedires.
- Cuidado! Posso desejar algo que não poderias me dar.
- Prefiro correr o risco.
- Muito bem! Até que enfim você tomou uma atitude. Então vou te segredar o que deves fazer para teres a mulher que desejas mas, assim que obtiver eu voltarei para que nossa barganha se efetive.
- Assim seja.
- Ao amanhecer vá até um vulcão e traga uma pedra de dentro da cratera. Consiga pêlos de javali, uma estrela do mar e vinho que ninguém tenha bebido ainda. Quando a Lua estiver em todo seu esplendor voltarei para fazer a poção. Um detalhe ninguém deve colocar os olhos nesses ingredientes. Também precisarei de um frasco de cristal e um caldeirão para a fervura.
- Providenciarei todos os seus pedidos.
- Daqui a cinco noites estarei de volta.
Então Desejo sumiu com aquele sorriso entre angelical e diabólico...
O sacerdote começou a procurar os ingredientes. Tudo parecia ir contra seu desejo. Chegando na montanha que ele sabia ser um vulcão teve medo e quase desistiu, subiu a encosta devagar e pensou:
- Poderia pegar uma pedra daqui e dizer que é da cratera.
Então Desejo apareceu.
- Sacerdote se me ludibriar não ganharás nada...
- Estás coberta de razão Divindade. Farei o que é certo.
Imbuído de coragem ele conseguiu pegar a pedra. Pensando em seu objeto de desejo ele foi atrás do javali, o bicho era enorme. O sacerdote vacilou mas, se lembrou de Desejo e respirando fundo e com muito cuidado pegou um tufo de pêlos. As estrelas do mar foram mais fáceis... Ele sabia que em alguns pontos da praia, entre as pedras elas eram facilmente encontradas. Agora só faltava o vinho, então o sacerdote se lembrou de uma fazendinha que produzia vinhos. Conversou como o dono dizendo que precisava de vinho novo para o templo. O homem mais do que depressa entregou ao sacerdote um garrafão. Voltando para a cidade ele se lembrou que precisava de um frasco. Perambulou pelo mercado e não encontrou nenhum como Desejo queria. De volta ao templo ficou pensando em como resolver mais esse problema, quando se lembrou do mercador que sempre vinha ao templo fazer oferendas e oferecer holocaustos para que suas viagens fossem bem sucedidas. Dois dias depois o tal mercador apareceu, o sacerdote perguntou se ele teria um frasco de cristal sem nenhum tipo de mancha. O homem pediu que ele esperasse, saiu e voltou duas horas depois exatamente com o que o sacerdote queria.
Então o sacerdote guardou tudo em seu esconderijo para que nenhum olhar pousasse sobre seus ingredientes mágicos e esperou por Desejo, ansiando que tudo corresse bem e que a Divindade não lhe desse as costas como as vezes acontecia. Ele as vezes via o objeto de seu desejo andando pela cidade ou mesmo no templo mas, se continha e não falava mais com ela. Seus olhos dardejavam na direção da mulher. Ela sentia mas fazia de conta que não era com ela. E Desejo a tudo observava e se deliciava. Então resolveu que aquela mulher desejaria aquele homem. Claro que todos os ingredientes eram só uma pilhéria mas o sacerdote não precisava saber. E isso fazia Desejo rir gostosamente.
Aos poucos Desejo foi insuflando na mulher o desejo pelo sacerdote. Ela ia ao templo, ao mercado, ao teatro e tudo o que via era o sacerdote. Ansiava por estar com ele. Só que ele a ignorava. Ela pensava:
- Até outro dia ele me queria, me desejava e agora me ignora. Será que ele está enamorado de outra?
Suas perguntas não tinham respostas. E ela a cada dia desejava mais aquele homem.
- O que a impossibilidade imaginada não é capaz de fazer! - Pensava Desejo consigo mesma.
Enfim chegou a noite da Lua em seu esplendor. O sacerdote trouxe todos os ingredientes recolhidos para sua saleta particular no templo. Estava impaciente, já não suportava mais aquele desejo insatisfeito.
Desejo surgiu, bela e mortal. Parou em frente a mesa onde estavam os ingredientes e perguntou ao sacerdote:
- Faltou alguma coisa?
- Não Divindade.
- Acenda o fogo, coloque no caldeirão a pedra, as estrelas do mar, agora o vinho. Jogue o tufo de pêlos ao fogo. Espere esfriar, coe e coloque no frasco. Amanhã a noite quando a mulher vier ao templo a chame e pergunte se ela quer tomar um pouco de vinho contigo.
- Só isso?
- Sim o resto é comigo!
- Farei isso Divindade.
- Não se esqueça que da minha paga.
- Mas ainda não sei o que desejas Divindade.
- Na hora certa saberás.
Desejo se vai e o sacerdote fica esperando a poção esfriar para colocar no frasco. Terminado ele vai dormir, ansiando por aquela mulher.

No outro dia o objeto de seu desejo vai ao templo fazer uma oferenda, na verdade ela secretamente quer saber se o sacerdote está enamorado de outra, entra e vai direto para o local dos holocaustos. Faz sua prece em silêncio, pedindo para ser atendida. Desejo ouve o que vai no pensamento daquela mulher e ri. 
- Preciso saber se ele ainda me ama, se me deseja.

Ela deposita sua oferenda e sai de cabeça baixa. Quando sente uma mão em seu braço, é o sacerdote.
- Gostaria de tomar um pouco de vinho comigo?
- Sim eu adoraria.
Ele a conduz até sua saleta particular e serve duas taças da poção. Eles bebem em silêncio.
- Estás por acaso enamorado de outra mulher?
- Nunca mas, por que a pergunta?
- Não me olhas mais, não falas mais comigo..
- Estive ardendo de desejo por ti esse tempo todo e nunca me notaste.
- Notava sim mas, tinha receio de ser só um passatempo.
Enfim eles se uniram. E o desejo entre eles só crescia. Era um fogo que todos notavam. Transbordava pelos olhos, pelas mãos e até mesmo pela boca quando falam um com o outro...
O tempo foi passando e ele esqueceu-se de Desejo. Até que ela veio lembrá-lo.
- Então sacerdote estás satisfeito?
- Estou Divindade, nunca pensei que pudesse desejar tanto alguma coisa e isso não diminui...
- Agora é a hora de pagar.
- O que desejas Divindade?
- Desejo tudo!
- Como assim Divindade?
- Eu sou Desejo e portanto todo Desejo sou eu. Tanto você sacerdote como a mulher são partes de mim. Quando sua hora chegar vocês voltarão para mim, assim como permiti que vocês partissem de mim.
-Então tomarás nossas vidas?
- Não vocês me servirão a cada vez que desejarem algo por menor que seja. E ao final não saberão mais se o que desejam vem de vocês ou de mim. A cada desejo realizado estarei em sincronia com vocês. E a cada desejo não realizado vocês perderão um pouco de mim. Aviso sacerdote que não seria bom perder Desejo.
- Não perderemos Desejo!
- Agora me vou mas lembre-se sempre estarei aqui. Afinal o limiar é meu reino.
Assim Desejo se desfez no ar... E o sacerdote pensou:
- Desejo é algo efêmero mas que dá graça a vida. Então que vivamos conforme nossos desejos.
Desejo sempre está presente em nossas vidas, independente se for bom ou ruim. Ela é realmente uma faca de dois gumes. Tanto pode ferir como salvar. Depende sempre de como encaramos nossos desejos. E como você encara os seus?

Um comentário:

Anônimo disse...

Oi La Rosa...adorei o texto e como sempre não o entendi direito...sinto saudades de você..às vezes nem eu me entendo...acho que você sabe quem é...aquele....