quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O SENHOR DO SONHAR



Ela era alguém que até uns dias atrás nunca havia encontrado dificuldades para dormir. Sempre tivera a vida ativa. Era uma pessoa diurna. Sua produtividade era alta. Mas de uns tempos para cá, algo havia mudado. Olheiras e mal humor estavam afetando seu modo de encarar a vida e também seu trabalho. Então decidiu ir a um médico para verificar o que estava ocorrendo com o seu sono. Dormia mal e acordava mais cansada ainda. Agendou uma consulta. Seu médico lhe disse que não havia nada errado fisicamente com ela. Ela concordou e quando estava já com a mão da maçaneta da porta do consultório o médico lhe diz que talvez o problema fosse mais sutil. Algo relacionado com a mente ou o espírito. Então ela diz ao médico:
- Provavelmente é algo espiritual. Até mais doutor.
E sai. Nesse dia resolve não voltar ao escritório. Precisava pensar. Tentar entender o que havia de errado. Vaga pela cidade sem um destino específico. Quando se sente atraída por uma pequena livraria. E pensa por que não? Entra e se maravilha com aqueles livros e o cheiro que tem o lugar. Cheiro de livros novos e velhos. Ela percorre as várias prateleiras. Não sabe na verdade o que está buscando. Mas se deixa levar pelo instinto. Passa por várias seções. Guerra. Espiritualidade. Best sellers. Romances. Terror. Há de tudo ali. Fica um tempo “sentindo” o que quer. Segue mais adiante. Mitologia de várias países. Segue em frente. Um estalo ou “insight” diante do Livro dos Mortos, daquele povo que a faz sentir saudade de casa, pega o livro. Continua em sua exploração. Mais adiante encontra um livro sobre o significado dos sonhos. Na verdade há muitos de vários autores. Ela se deixa levar e toma para si um onde na capa há um homem cercado pelos mais variados objetos. Ela nem sequer lê o título. Indo em direção ao balcão para pagar se vê atraída por um Grafic Novel do Sadman. Pensa consigo: Pode ser interessante. Mas não presta atenção na capa do HQ. Conversa amenidades com o homem do caixa enquanto efetua o pagamento até o mesmo lhe dizer que há mais algumas HQs como aquela e que são consideradas muito boas. Ela pergunta onde estão as outras, ele diz que irá pegar e se a moça quer todas.
- Sim quero.
- O Sandman é conhecido como o Senhor do Sonhar. - Ele diz.
Então ela se pega pensando que esse tal Senhor do Sonhar bem que poderia lhe ajuda. E é quando ela olha para a capa do HQ com curiosidade pela primeira vez e leva um susto. Sente o coração acelerar e um suor frio escorrer pelas suas costas. O primeiro pensamento é de reconhecimento. Aquela sensação de familiaridade. Ela pensa?
- Devo estar cansada, também três noites em que não sei o que é dormir e relaxar. Deve ser coisa da minha cabeça.
O rapaz volta com os outros HQs e ela sente novamente aquele estremecimento ao ver as capas. Ele coloca todos os livros e HQs em duas sacolas. Eles se despedem. Ela sai e decidi que irá de táxi pra casa, por ser mais rápido. Nesse instante um vem passando, ela faz sinal e o carro paro. O motorista pergunta para onde, ela dá o endereço. Sentada no carro ela pega o primeiro HQ e fica admirando o homem ali desenhado e aquela sensação volta mais forte agora. Então ela pega o livro sobre sonhos para começar a ler. É um livro pequeno, nada demais na verdade. Antes do táxi parar na frente da casa dela, já estava na metade no livro. Paga a corrida e sai. Entra em casa, coloca a sacola em cima da mesa e vai para o banho. Já no chuveiro ela se pergunta como pode um ser imaginário ter aquele impacto nela. Balança a cabeça se dizendo:
- Você deve estar ficando louca ou algo por aí.
Sai do banheiro e vai para o quarto. Veste a camisola e penteia os cabelos. Volta para a sala. Prepara algo para comer, pensando nos livros. Decidi ouvir música. Depois se senta no sofá com os livros espalhados na mesinha de centro. Termina o dos sonhos e diz:
- Nenhuma novidade.
Pega o Livro dos Mortos, em uma das passagens ali ela se depara com algo que sente ser real:
“Todas as noites morremos um pouco ao dormir.”
“Os que sonham são abençoados pelos Deuses.”

- Sonhar!! Como assim? Não me lembro dos meus sonhos. Na verdade penso que não sonho. Embora todos sonhem, segundo dizem os psicólogos, psiquiatras e nem sei mais quem. Então se sonho e não me lembro é provável que não seja importante ou que meu cérebro assim o considere.

Olhando para o relógio pensa que está tarde, mas quer ler os HQs. Aquele homem desenhado lhe prende a atenção e quanto mais lê aquelas histórias mais inquieta se sente. Algo dentro dela parece querer despertar, algo parece gritar dentro dela. Ao terminar a leitura se assusta com o adiantado da hora.
- Ainda bem que não tenho de trabalhar amanhã ou melhor hoje.
Leva para o quarto os HQs e os coloca no criado mudo. Ajeita o edredom e os travesseiros, apaga as luzes. Antes de cair no sono a última imagem que vê é daquele homem, sombrio e pálido, com aquele manto que abarca tudo inclusive ela.
De repente ela está em um outro ambiente. Não reconhece nada ali. Sente medo e apreensão. Vagueia por um jardim estranho. Plantas que nunca vira. Cheiros inebriantes. Então ela se dá conta, está sonhando.
- Sonhando eu? Mas como? E onde estou?
Avista um castelo no horizonte e segue para lá. Não chega a dar um passo direito e está na frente daquele castelo descomunal. Tudo é tão grande e ao mesmo tempo tão vazio. Tem a sensação de que alguém a observa. Quado se vira não há ninguém ali. Ainda observando ao redor ouve quando as portas são abertas. Olha para o interior e fica indecisa se entra ou não. Dá alguns passos para trás em um movimento de defesa natural quando ouve uma voz dizendo:
- Entre! Você não veio de tão longe para voltar agora não é?
- Não sei como cheguei aqui.
- Sua vontade te trouxe até mim.
-Que vontade? Nem sei onde estou?
- Não mesmo? Tem absoluta certeza do que profere?
Então aquele ser aparece e ela treme, não é medo, é algo que ela não sabe o quer reconhecer. Seus olhos se encontram e ela se sente rendida. Se sente caindo em um abismo sem fim e livre como nunca antes. Então responde:
-Sim foi a minha vontade que me trouxe ao seus domínios. Preciso lhe fazer algumas perguntas.
-Faça. Só não garanto que as respostas serão as que você imagina cara.
- Por que ultimamente estou com dificuldades para dormir?
- Estás a descobrir o que seu íntimo quer. É natural a rejeição da mente cotidiana.
- Não me lembro dos meus sonhos, por que?
- Na realidade se nega a trazê-los à tona. E ao fazer isso bloqueia sua personalidade e o que vem despertando em si mesma.
- Como assim? Os sonhos sempre foram algo normal. Quer dizer do dia a dia. Nada demais ou de menos.
- Estás a simplificar. Por que?
- Não é simplifica. Somente uma constatação.
- Quer realmente se lembrar dos sonhos das últimas semanas? Se realmente quiser isso, posso providenciar isso.
- Sonhos dentro de um sonho? É possível isso?
- Aqui em meu reino,tudo é possível. Desejos e fantasias são o tecitura desse lugar.
- Eu quero! Preciso entender o que mudou em mim. Já que aparentemente o mundo continua o mesmo.
Então pela primeira vez o homem sorri e ela se perde em meio aquele sorriso. Vários pensamentos desencontrados a assaltam. E ela se diz:
- Vamos com calma! Muita calma.
Ele faz um gesto indicando o caminho. Então eles adentram o castelo. Ela percebe várias escadas. Alguns quadros. Mas tudo de relance. Já que é conduzida para uma saleta ou quarto, não tem certeza. Se aproxima da janela alta e se espanta com a vista. Tudo tão lindo e tão palpável. Avista uma praia com areias tão brancas que os olhos doem. A floresta do outro lado com uma exuberância que fere a vista. E se pergunta:
- Será tudo isso real?
- Tudo é real. Mesmo que os humanos não saibam a diferença realidade e não realidade.
- Como?
- Simples, realidade é tudo aquilo que te afeta. Já o que não te afeta pode ser ou não real. Em algum momento poderá vir a ser. Agora venha e deite-se aqui. Vou lhe dar uma bebida suave, através dela poderá ter acesso aos sonhos antigos. Estarei aqui para te guiar, te acompanhar. Não se preocupe.
- Minha preocupação é justamente essa.- Dizendo isso ingeri o líquido meio dourado que está em uma taça de cristal belíssima. Sente seu corpo relaxar instantaneamente e seus olhos pesarem. Mas não perde a consciência. Aliás pelo contrário tudo se intensifica. As cores, os cheiros, as sensações e os sentimentos. Ela está no limiar entre mundos.
Ele começa a falar, a dirigir sua atenção.
- Ouça minha voz e procure trazer as lembrança de volta. Não se preocupe estarei bem aqui para lhe proteger. Vamos aos poucos.
Ouvindo a voz pausada dele, ela se acalma e começa a narrar o que sua mente vê:
- Estou em um lugar escuro, está frio e sinto medo. Tudo escuro, pareço estar em um tipo de cela. Tento me levantar mas o lugar é pequeno e não consigo.
- Preste atenção. A cela é sua mente. O que sente aí é o que sente em qualquer outro lugar. Respire pausadamente.
Ela passa a respirar devagar, se acomoda melhor na cama, está em posição fetal, toda encolhida. Ele passa os dedos pelos cabelos dela, transmitindo proteção e confiança enquanto espera que ela continue.
- Agora estou em um campo aberto, espere estou no castelo. Percorro todos os cômodos, até chegar a um quarto. A porta está trancada. Fico indecisa se entro ou não.
- Você quer entrar?
- Sim quero! Mas ao mesmo tempo tenho medo.
- Medo?
- De mim e de você.
- Quem sou eu?
- O Senhor do Sonhar.
- E o que te inspiro?
- Difícil definir.
- Tente.
- Uma gama enorme de sensações e sentimentos.
- Você está sendo genérica. Por que? O que está escondendo de você mesma?
- Ok! Escondo meus sentimentos de mim. Não preciso de análise quanto a isso. Intensidade é algo prejudicial. As pessoas tendem a não entender gestos assim.
- Sei o quanto és intensa. E isso não me incomoda.
- Aprendi a manter minhas defesas em pé. Poucos sabem o que sinto ou deixo de sentir. Uso máscaras apropriadas a quase todos os momentos.
- Suas máscaras te machucam? Quer se livrar delas?
- As vezes machucam, mas prefiro que elas permaneçam ali. É mais seguro.
- Seguro pra quem?
- Acredito que para todos.
- Vamos em frente! Entre no quarto, não se tranque.
- Ao abrir a porta dou de cara com você. Parece estar a minha espera e me convida a sentar, me pega pela mão e me leva até as poltronas. Nos sentamos e não te olho. Não quero olhar. Vagueio os olhos pelo quarto. Percebo um espelho enorme e também a janela. Vou até lá. É noite, as estrelas cintilam e a lua está cheia. Um cenário de sonho.
- Se tudo é tão lindo de onde vem o seu medo?
- Não quero falar sobre isso!
- Aí é que está! Vamos ter de falar. Quero saber e só assim você entenderá todas as implicações.
Ela respira fundo e tenta sair daquele transe, não quer mais lidar com aquilo de forma alguma. Mas uma força maior que a sua a impede. Não há agressão. Só um suave conduzir. Ele volta a falar, agora mais perto, quase sussurrando em seu ouvido:
- Lembre-se que estarei sempre aqui. O medo pode ser superado. E ao passar por esse limiar verá que eram somente suas amarras. Nada além.
Novamente ela mergulha em si mesma. Aquela voz tem o dom de levá-la aos abismos mais profundos e ao mesmo tempo a paraísos desconhecidos. Ela sabe que não tem medo de abismos. Nem de demônios ou mesmo deuses. Seu medo vai além deles. Volta no tempo. Em algum momento onde eles não existiam. Onde somente reinava algo mais primordial Seus instintos estão todos em sobreaviso. E quanto mais ela mergulha mais cresce a necessidade de respirar. A necessidade de voltar a realidade.
- O que é realidade? - Ela se pegunta em meio ao grito sufocado na garganta.
- Tudo o que você quiser que seja. - Aquele sussurro mexe com ela profundamente. Ela o reconhece como um eco de si mesma. Um portal entre mundos. E simplesmente se deixa surfar por ele. Reconhece o toque. Mesmo sabendo que ele não se mexeu um centímetro e então pergunta:
- Como é possível?
- Somos energia. Então quando quero te tocar expando a minha energia para encontrar a sua. Não é a primeira vez que acontece.
- Não! Mas eu pensava que era um tipo de loucura minha. Algo que eu havia inventado, portanto, não real.
Ela ouvi uma risada baixa e profunda que vem dele e a acerta em cheio. Perde o fôlego e o resto das suas reservas.
- Conte-me o que você vê. Mostre se pra mim.Sem rédeas.
- Não posso. As rédeas são o que me mantêm segura. Com elas permaneço na minha área de conforto.
- Vamos lá. Não estou aqui para julgar ou mesmo para apontar seus erros. Só quero que você seja você mesma. Ou será que não tem coragem o suficiente?
A pergunta foi lançada como um desafio. O Senhor do Sonhar conhece aquela mulher muito bem e sabe que ao ser desafiada, seu lado mais aguerrido irá trinfar sobre aquelas defesas bem armadas.
- Pois bem,.vejo os abismos. Não tenho medo deles. Já caminhei ali por várias vezes. Conheço cada um dos monstros que estão ali. Os medos que sufocamos e depois jogamos no fundo dos abismos. Não é disso que tenho medo.
- Não é mesmo! Então vamos em frente. Enquanto você brinca de esconde esconde, estarei guardando seu sono.
Ele se afasta um tanto. Prestando atenção a respiração dela, passa a admirar o quadro a sua frente. Não necessita que ela lhe conte o que está vendo ou sentindo. Afinal estão nos domínios dele. Então ele se foca nela. Instantaneamente está lá em meio aos sonhos e pesadelos dela. Ele resolveu que irá mostrar a ela seus sonhos esquecidos. E então como em um filme todos eles se apresentam. Os dois estão caminhando juntos. E ela se aconchega a ele em busca de proteção.
- Agora vamos encontrar o que gerou seu medo de dormir.
- Tem certeza?
- Sim.
O cenário muda, estão em um lugar desolado. Não há nada ali. Só o vazio. Um vento furioso se espalha pelo lugar trazendo um cheiro horrível, de morte e decomposição. É um planalto gigantesco eles caminham sempre em linha reta até encontrar uma caverna. Ela para, está tremendo. Ele percebendo sua aversão diz:
- Vamos entrar. Ninguém irá machucá-la. Nem mesmo você.
Ela simplesmente concorda e dá o primeiro passo adentrando a caverna. Ali montes e mais montes de esqueletos. Fetos mal formados. Pedaços de pernas, braços, crânios, várias moscas se alimentando em um banquete sombrio. Ela segue em direção ao fim da caverna. Vê um altar onde repousa um corpo e se aproxima. Deitado ali está um homem. Está vestido como um sacerdote e parece não respirar. Ela o toca e ele desperta. Imediatamente ela recua ao sentir seu pulso preso pela mão do sacerdote. Ele lhe entrega um punhal com o cabo formando um ank e lhe diz:
- Isso lhe pertence. Sempre pertenceu. Não tenha receio de mim. Não vim para lhe fazer mal. Vim para lhe mostrar o caminho, embora acredite que já o conheças.
O sacerdote se deita novamente no altar e ela pensa:
- Conheço esse homem. Cada fibra de seu ser concorda com a informação.
- Vamos em frente. Ainda temos alguns lugares para ir. - Diz o Senhor do Sonhar.
Eles saem pelo outro lado da caverna. Agora estão em uma praia. Novamente ela sente o vento mas dessa vez é agradável. Sente com ose ele a estivesse limpando, energizando. Caminham bem perto do mar. Por vezes ela estaca para sentir as ondas brincarem em suas pernas. Ele não a pressa, sabe que ela necessita do contato e desse tempo para se reorganizar.
Alguns metros adiante ela percebe uma fogueira, homens e mulheres dançam em volta da mesma. Estão nus e todos embriagados talvez. Ela se senta um pouco afastada e fica observando os dançarinos. Mexe a cabeça acompanhando o som. Até que um homem se destaca. Ele fala sobre o que irá acontecer naquela noite. Sobre como eles esperaram por aquele momento. Como estão gratos em estarem ali. Nesse momento ela começa a se levantar quando sente a mão dele em seu braço e volta ao seu lugar. A fogueira é alimentada todos parecem estar em êxtase.Ela começa a tremer e o Senhor do Sonhar a abraça mas ela não consegue mais tirar os olhos do espetáculo que está se desenrolando diante dos seus olhos. Homens e mulheres saciando seus desejos e suas bestialidades. Até que um homem com um tipo de cajado surge no meio deles. E direcionando o cajado vai sugando todos eles. As pessoas desaparecem no ar. Não sobra nada de nenhum deles. E ele se vira para ela, a única sobrevivente. Com o cajado apontado para ela diz:
- Criança não temas. Ainda nos encontraremos mais vezes.Mas posso lhe garantir que não é meu desejo extinguir seu ser. Se fosse não estarias mais aqui.
Ele some em meio a névoa. O pânico toma conta dela. Por reconhecer aqueles olhos. São os mesmos do sacerdote. Por saber que já esteve entre aqueles braços. Ela então abaixa a cabeça e pergunta ao Senhor do Sonhar em um murmúrio:
- Então era você o tempo todo? Por que? O que desencadeou tudo isso?
- Você desencadeou a partir do momento em que não admitiu para si mesma seus medos e desejos.
Então ela se levante e grita:
- Pode parar. Não minto para mim mesma. Posso não verbalizar, não exteriorizar mas não minto para mim mesma. E tem mais comecei a ter dificuldades em dormir e portanto sonhar, porque você decidiu brincar comigo. Há milhares de milhões de sonhadores nesse mundo e em outros. Então por que foi cismar justo com a minha cara? Sou alguém normal. Levo uma vida normal. Não quero e nem preciso aparecer. Não gosto de palco. Muito menos de chamar a atenção. Gosto de andar em meio aos outros sem ser notada. Então por que diabos você, justo você foi notar alguém como eu? - Ao terminar de falar ela já estava sussurrando. Ele se aproximou novamente e a abraço, dizendo:
- Há perguntas que não necessitam de respostas verbais, mas vou tentar te explicar de um modo geral. Acompanho teus sonhos desde muito tempo, da época em que eras uma menininha briguenta, quando seus sonhos eram carrinhos de rolemãs, esconde esconde, viajar em um corvo, atravessar o deserto em um tapete mágico. Admito que pensei que meu interesse fosse diminuir conforme você crescia, mas não foi o que ocorreu. Na adolescência, quando pensei que seus sonhos estariam voltados aos astros do cinema e música, me surpreendestes. Foi nessa época que seus sonhos passaram a ser mais “mágicos”, com símbolos que não conhecias, cheguei a pensar que não irias procurar por eles.Nova surpresa. A cada sonho seu você estava mais forte e mais digamos concentrada aqui em meus domínios acostumei-me a sua presença. As nossas conversas e flertes.Não é necessário que fiques sem graça. Foi algo natural. Seguiu o curso da vida que pulsa em nós. Já adulta houve um tempo que seus sonhos eram dirigidos, já que precisavas encontrar respostas e então a deixei livre. Você adentrou espaços que ninguém havia tido acesso. Sua persistência é algo notável. Ficava admirado com ela e então de uma hora para outra, simplesmente desistiu. Tomava remédios para dormir. Ou seja embotava a mente e o espírito. Estava fugindo de algo. E eu tentando entender o que estava acontecendo. Então passei a lhe visitar durante seu sono. Pude perceber que de muitas formas várias pessoas minaram sua fé e sua coragem. Você permitiu que outros te dissessem o que era certo ou não. Permitiu não sei porque que outros conspurcassem sua própria vontade. Refleti durante um longo tempo o que deveria fazer e se deveria mesmo fazer alguma coisa. Tentei mesmo me afastar de ti. E até consegui por um tempo. Mas seus pesadelos começaram a me deixar ansioso. Porque você os estava levando para o seu dia a dia. Enviei avisos os quais ignorou, todos eles. Então não me deixou alternativa a não ser essa. Fui buscar seus medos e desejos. Devo admitir também que fui surpreendido por eles. Mas estava disposto a ter de volta o que era meu. Então os instrui detalhadamente. Nesse ínterim passaste a sonhar sem se lembrar. E eu sabia que chegaria a hora em que resolveria me procurar. Sobre ser normal ou qualquer coisa do gênero pouco me importa. O que me importa é você. Sempre soubeste entrar e sair do Sonhar. Mesmo quando ias a lugares onde não deverias ir. Aqui nos fazíamos companhia. Muitas vezes fui te visitar em seu plano e sempre sentiste minha presença, o reconhecimento era instantâneo. De ambas as partes. Os elementos aqui apresentados funcionam como uma chave identificadora para nós. Sua paixão pelo Egito sempre foi forte assim como sua ligação com a Magia. Decidi que me aproveitaria de tudo para conseguir nos reconectar. Deu certo.
Ao terminar de falar ela estava nos braços dele. Não sabia mais se estava chorando ou sorrindo. E perguntou:
- Custava ter me perguntando?
- Você negaria.
- Talvez não.
- Viu? Negaria sim. E não me arrependo. Meus métodos são um tanto caóticos mas dão certo.
- Um tanto caóticos? Completamente. Mas sim dão certo. E tens razão. Ao permitir que pensamentos alheios aos meus dominassem minha mente, fiquei confusa e com muito medo. Pensei estar definitivamente louca. Como assim, pensava eu, como posso amar alguém que não existe? Como sentir desejo e tesão por alguém que não posso tocar? Isso só pode ser maluquice minha. E aos poucos fui me distanciando tanto dos seus domínios tanto de você. E quando sonhava, o que era raro, me via naquele lugar desolado ou então na praia. Nunca conseguia chegar ao castelo e muito menos a floresta. Na verdade me entregava aquele lugar. Sentindo que era isso que eu merecia. Ao mesmo tempo que almejava estar em seus domínios. E quando hoje encontrei aqueles livros e os HQs, minha consciência gritava e meu inconsciente acordou e fez um rebuliço, foi algo que há muito não sentia. Uma urgência e ao mesmo tempo uma dor. Então resolvi agir. Acredito que tenha sido instinto.
- Sim todas as vezes em que você permitiu que os instintos ou a intuição lhe guiassem, sempre se deu bem. As outras vezes em que quiseste se enquadrar no que os outros dizem ser Magia ou mesmo a tão afamada Normalidade, daqui eu sentia como se estivesse se violentando, se machucando, se punindo. E nunca entendi porque. Quer tentar me explicar?
- Posso tentar, mas as vezes nem eu sei ao certo o porque. Acredito que precisava me sentir aceita ou algo do gênero. Queria fazer parte de alguma coisa. Ou de alguém. Nunca deu muito certo. - Ela dá um sorriso triste.
- Sabe por que? Vou te contar. Não é preciso se adequar. Isso é se mutilar. Se alguém quiser estar na sua vida deve ser por quem és. E não por uma imagem que o outro tem de ti. Não és uma imagem. És real. Talvez, não devesses ser tão intensa. Mas se assim o fosse não seria você mesma. Não se mutile. Vibre como sempre vibraste. Seja o ser que és. Até porque és melhor a cada anoitecer e amanhecer. Quem não vê isso é cego. Agora vem preciso que voltes ao teu corpo. Antes do amanhecer...
- Mas já?
- Agora virás sempre aos meus domínios.
Ela acordou primeiro do sonho dentro dos sonhos. E estava deitada no colo dele. Fazia muito tempo em que não se sentia tão em paz. Queria que aquele momento não acabasse. Mas sabia que o amanhecer se aproximava e então tocou aquele rosto pálido e adorado. Seu coração transbordou e enfim a paz tomou de assalto seu espírito.
- Devo regressar ao meu mundo.
- Sim deve. Antes quero que leve isso com você e o use sempre.
Ele lhe entrega uma caixinha pequena e negra como seu manto, ao abrir para ver o que tinha dentro seus olhos se enchem de lágrimas e ela diz:
- Obrigada.
Eles trocam um beijo suave e ela desperta.
No criado mudo em cima dos HQs está uma caixinha preta, ela a abre e dentro está o ank dourado. Ela o leva aos lábios e depois ao coração. Relembra os sonhos e sorri dizendo para si mesma:
- Estou de volta ao lar.

Um comentário:

☠Neith War☠ disse...

Uma viagem incrível ao mundo dos sonhos!! Adorei!