quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

DESTINO



Existe um lugar em lugar algum. Algum canto do universo onde se encontra um ser ou talvez algo parecido com isso. Não se sabe bem onde, como e quando. São tantas as perguntas e poucas as respostas. Ele carrega um livro algemado em uma de suas mãos. Usa um manto com capuz que lhe encobre a cabeça. Nunca se sabe se ele é cego ou não. Alguns dizem que sim. E por que? Ele é Destino. Tem o conhecimento de tudo que foi, é e será. Seu habitat é descrito como um jardim cercado por labirintos. Todos os caminhos estão contidos ali. Mas, uma vez tomada uma direção não há volta. Ação e reação. Acredito que por vezes Destino se sinta solitário. Então abre o Livro e lê. Acredito também que nem sempre a leitura faça bem a ele. Por vezes ele caminha por seus vários labirintos. Ouvindo a música das esferas. Sentindo o pulsar dos universos. E se pergunta: Por que? Não somos só nós a não termos essa resposta. Então Destino se lembra de como tudo começou. Do despertar. Do assombro. E do medo. Ninguém lhe perguntou se ele queria ser Destino. Se queria ter aquele livro algemado a ele e ele ao livro. Hoje se sentiria nu sem o mesmo. Faltaria parte dele. Destino se pega pensando: Dificilmente me questiono. Faço o que tem de ser feito. Ofereço a eles, as várias humanidades, caminhos, escolhas. O que vem depois, é uma nova história. Todos os segundos são feitas novas histórias. Então em um canto do seu jardim Destino se senta e abre o Livro. Ele pensa poderia contar minha fábula a alguém. Mas quem? Quem poderia ouvir essa história sem muitos questionamentos? Qual ser aceitaria uma conversa com Destino sem que lhe fizesse perguntas? O Livro se abre e para em uma página. Aparece o rosto de uma mulher, humana, Destino tomba a cabeça de lado e as questões não saem de sua mente. Sou Destino. Devo arriscar. Se ela não quiser ouvir ou não calar a boca, simplesmente farei com que escolha um outro destino, um em que não me encontraria. Agora vou até ela ou a trago aqui? Quantas variantes uma única opção pode oferecer. Decido trazê-la aqui afinal, é mais fácil quando estamos no nosso próprio território. Novamente abro o Livro, as páginas vão passando até que param em um determinado destino. Então pouso os dedos sobre aquelas páginas e convoco a presença daquele ser. Instantaneamente sou obedecido. Ela está aqui. Fica pasma. Faço o sinal do silêncio. Ela concorda. E a convido a passear pelos jardins labirintos, passear pelo lugar que chamo de lar. Silenciosa me segue. Sinto que está no final do que alguns chamam de vida. Talvez por isso a tenha escolhido ou não. Ela me olha interrogativamente e então começo dizendo: Estamos aqui porque decidi que quero contar minha história a alguém e te escolhi. Seus olhos ficam arregalados pela surpresa, mas não abre a boca. Só faz um movimento indicando o Livro. Ah! Sim sou Destino. E esse é o Livro que alguns chamam de Livro da Vida, e muito provavelmente de Livro da Morte também. E muitos outros nomes. Eu o chamo somente de Livro. Não consigo me lembrar se em algum momento de minha existência Ele esteve separado de mim ou eu dele. Sim sou um pensamento recorrente em todas as mentes de todos os universos. Sou um dos Perpétuos, dos Sem Fim. Há quem nos chame de Arquétipos, aliás nos dão tantos nomes que as vezes fica complicado entender. Mas essa humanidade da qual fazes parte sempre foi assim desde o princípio. Criaram Deuses para depois bani-los. Passadas várias eras resolveram que esses mesmos Deuses deveriam ser novamente adorados. Estranha humanidade, muito estranha mesmo. E não faço parte desses Deuses ou de qualquer outro. Quando eles veem até aqui a procura de conselhos, os olho com complacência. Como poderia explicar que mesmo quando não são adorados por milhares eles ainda continuam presentes em suas mentes? Você está me olhando de modo interrogativo. Vou tentar explicar. Nada do que existe, deixa realmente de existir. Digamos que tudo passa por revoluções. Nada além disso. Ah sim já passei por várias revoluções. Em algum lugar no tempo e espaço, muito antes dessa humanidade ser engendrada, li e reli este Livro, presenciei os nasceres e morreres de muitas humanidades, em vários orbes. Senti dentro de mim, dores, prazeres e uma infinidade de sentires. A cada novo começo me sento aqui e folheio este Tomo. Por diversas vezes interferi de modo muito sutil em mundos. Como explicar essa minha atitude? Vejamos. Todo destino é maleável. Tudo pode mudar num piscar de olhos. Ou mesmo em uma pisada diferente. Então por vezes usei este Tomo como um oráculo. Talvez por isso exista a crença nessa humanidade de que há um Livro perdido, que um determinado Deus criou, estando tudo nele descrito, desde o começo dos tempos até o final. Contando a história dessa humanidade tintim por tintim. O mais provável é que eu tenha fixado isso em suas mentes como uma forma de lhes lembrar que nada passa desapercebido por mim. Mas, em algum lugar da história de vocês, determinadas pessoas decidiram que isso deveria virar um dogma ou um paradigma. E o que aconteceu? Uma grande confusão. O que era algo simples transformou-se em um motivo para diferenciar homens de homens. Destinos foram traçados por um Tomo que nunca pertenceu a humanidade nenhuma. Chega a ser engraçado. Houve mortes, perseguições e tudo o mais pelo que? Por um Livro que me pertence desde antes de vocês existirem. Tudo porque insuflei alguns pensamentos aqui e acolá. Em um outro universo ou realidade se assim preferir fui tratado como um Ser Supremo, o Cego que Tudo Vê, esse era o nome que me davam. Se sou cego ou não? Isso é irrelevante mas, digamos que vejo muito mais e bem mais longe. E isso nem sempre é algo agradável. Imagine saber que um sol irá se consumir e com isso tudo o que o cerca deixará de existir. Saber que de nada adiantará rezar, orar ou fazer sacrifícios, pois o tempo acabou. Que o amor que se pensava ser real não passa de ilusão. Vejo e sinto tudo isso. A cada vez que passeio meus dedos por esse Livro. É por isso que estamos algemados um ao outro. Porque já senti impulsos de queimar, destroçar, arrancar páginas e mais páginas dele. E nada acontece. Ele está sempre ali intacto assim como eu. Vivemos uma simbiose. Quando ele veio a mim não havia uma única palavra escrita. Nada. Eram páginas em branco. Então ao aceitá-lo elas começaram a ser preenchidas. E não sou eu quem escreve. Elas simplesmente aparecem e se gravam ali em ferro e fogo. Quando começou? Não tenho certeza, é como se sempre estivesse ali comigo. Parece uma extensão, somos um só. Ao sentir esses impulsos de destruição, o Livro me mostra quantas vezes já passamos por isso. E com o tempo acabei me apegando a ele. Sou variável. Há momentos em que estou plácido, calmo, aqueles momentos onde vocês se sentem num marasmo, onde tudo está no lugar que deveria estar. A vida corre como deve ser, como vocês dizem. Há outros momentos em que sou intempestivo, faço revoluções, modifico milhares de destinos, explodem guerras, terremotos, maremotos, tudo vira uma confusão só, e vocês dizem os Deuses ou Deus nos abandonou, a vida vira um verdadeiro inferno, não se entende nada, não se sabe em quem confiar ou a quem amar. Tudo por que? As variações de humor. E não são só minhas não. Quando folheio o Livro e percebo que a humanidade está indo para algum lugar que ela mesma não sabe onde vai dar, todos os seres criados e incriados se movimentam criando com isso uma reação aqui em meus jardins. Já me deparei comigo várias vezes. Caminhando por aqui calmamente quando sou sacudido por mim mesmo. Ou seja Destino encontrando Destino significa que algo vai muito errado ou distorcido em algum ponto de alguma realidade. Quando reúno-me a mim mesmo o que acontece? Nem eu sei ao certo! Sabe de uma coisa? As vezes gostaria de não ser eu. Já se sentiu assim? Claro que sim, todos em algum momento da existência já se sentiram dessa forma. Mas o que nem imaginam é que ser Destino é muito pior. Vejo o nascer e morrer de tudo e de todos. Assisto guerras e genocídios. Amores que nascem e morrem. Desejos dos mais singelos aos mais improváveis. A luxúria que escorre de todos os seres. A morte que vem e via constantemente. E eu aqui. Assistindo, observando, vendo. Normalmente é só o que faço. Mas as vezes o rebelde em mim desperta. E aí tudo acontece. Muda tudo não importando se é algo bom ou não. Aliás não sei o que são bem e mal. Aliás alguém sabe? Duvido muito. Tudo, absolutamente tudo é relativo. Nas vezes que me rebelo contra mim mesmo os universos viram pó. Os mundos nascem e morrem, explodem estrelas. Fervo, esfrio. Remoço e envelheço. Sou transitório assim como essa humanidade. Somos todos. Nada é perene. Nada é eterno. Ou talvez tudo seja eterno. Destino sou Destino. Hoje estou sereno e amanhã posso estar intempestivo. Suave e doce. Amargo e frio. Você pode me navegar e nunca me ver. Ou ser convidada por mim, como hoje, a estar no meu jardim e me ouvir pensar, delirar, xingar e depois ser mais uma vez Destino. Sem obrigação com nada ou ninguém. Sem amarras. Sem porto seguro. Então me dê sua mão e venha passear comigo. Garanto que será um passeio que se lembrará por muito tempo. Ou talvez me entranhe em seu ser e possamos navegar rumo ao infinito. Ao tudo e ao nada. Repouse a mão em meu braço, me deixe te enlaçar e vamos partir. Aqui é lugar algum. Lá é algum lugar? E quem se importa. Vamos deixar que o Livro do Destino nos guie. Então ele abre o Livro e eles são tragados. Até hoje não se sabe se ela voltou ou não. Mas as vezes se percebe um breve sorriso por entre o capuz de Destino, enigmático e suave. Quem saberá o que é ou quem é Destino? Talvez só ele. Talvez nem ele. E assim vamos nos aventurando por caminhos, por escolhas, por medos, por amores e desamores. Destinos e mais destinos. Tudo indo e voltando dele e para ele. Os olhos dela brilham a cada vez que alguém diz essa palavra tão misteriosa: destino.

Nenhum comentário: