sexta-feira, 20 de abril de 2012

Rito


Noite densa, corpo cansado que não consegue se aquietar. Mente em turbilhão. Mesmo querendo relaxar não consigo. Faço meditação. Inspira e expira. Até conseguir manter o ritmo. Ouço uma música, violinos e piano. Cruzo as pernas... E assim vou relaxando. Muito lentamente. Quando percebo o sono se aproximando sei que é hora de parar. Levanto, ando pela casa em silêncio, que delícia. Volto para cama. Antes de deitar fumo mais um cigarro e lógico bebo mais um pouco de café. Sinto-me completamente pronta para entrar no Mundo dos Sonhos. Onde nada é o que parece. E tudo pode acontecer. Onde as dimensões se encontram e a Magia acontece. Entoo um mantra, baixinho até tudo ficar em silêncio. Estou dormindo. Olho meu corpo deitado e me reconheço. Mas ao mesmo tempo sou um outro ser. Chega a ser engraçado. De repente sinto que preciso estar em um outro lugar. E me desloco numa velocidade incrível. Paro diante de um prédio alto que fica no meio do deserto. Que lugar estranho para se erguer um prédio. Quando chego mais perto, ouço a porta abrir. Do lado de dentro não vejo ninguém. Sem pensar entro e me deslumbro com o lugar. O que parecia ser prédio era tão somente uma mudança de dimensão ou algo do tipo. Vislumbro várias pessoas atarefadas. Ninguém parece estar parado. Mas há um silêncio delicioso naquele recinto. Sinto um toque em meu ombro. Olha na direção e me espanto com o que vejo, e fico ali olhando. O ser faz um gesto para que o siga. Começo a caminhar. Enveredamos por uma alameda arborizada. Aquilo me lembra um jardim imenso, com seu intrincado labirinto. O ser não fala só me guia até uma fonte. Lá chegando ele sorri e esvanece. Sinto que conheço aquela fonte. Dou alguns passos e me debruço nela, admirando a água, sentindo o ar passar por mim e a terra que me dá tanta segurança. De repente ouço um uivo com o susto quase caio dentro da fonte. Afasto-me da fonte procurando adivinhar de onde veio o uivo. Ao dar uns passos surge do jardim o maior lobo que já vi. Não estou assustada. E ele não vem sozinho. Com ele estão uma coruja e um corvo. Muito estranho. O lobo me circunda enquanto a coruja e o corvo pousam em cima da fonte. Dou alguns passos e o lobo vem caminhando ao meu lado. Volto para a fonte e encaro os olhos inquisidores daquelas aves. Sinto o focinho do lobo na minha mão, quando me abaixo noto que ele tem algo entre os dentes. Parece ser uma colar ou uma tira. Estico a mão e ele permite que pegue o que traz. Fico olhando para aquilo sem entender. Então o lobo uiva novamente e vai embora. A coruja pia e parece querer dizer que devo buscar o que falta desse objeto que seguro. O corvo continua só me olhando. A coruja alça voo e a sigo incontinente. Sinto que enxergo através dos olhos dela, procuro um objeto brilhante em meio as árvores. Depois de caminharmos muito, eu pelo menos, a coruja está pousada em um galho alto e me faz ver pelos olhos dela mais uma vez. Não muito longe dali parece que tem um disco ou algo assim brilhando no chão onde antes havia uma fogueira. Continuo até chegar no que restou da fogueira e entre as cinzas encontro um tipo brasão. Inscrito numa língua que não conheço. Mas a figura ali desenhada reconheço no ato... É um intrincado mosaico mostrando o que conhecemos como Abismo e como se chegar até lá. Só não mostra pra variar o caminho de volta. Então a coruja pia quando eu coloco o disco na tira... Era uma despedida. Agora ficamos só o corvo e eu. De repente ele crocita e dá uma rasante. Recuo instintivamente e ele olha pra trás como dizendo ande logo. Fica parado no toco de árvore e por incrível que pareça ele está me esperando, sinto isso até nos ossos. Então vou ao encontro dele. Ele voa num céu sem nuvens, uma total escuridão. Eu o sigo com certa dificuldade, sentindo o corpo doer e reclamar por conta da caminhada, mas continuo. Chegamos até um local assustador. Há cadáveres pra tudo que é lado e o cheiro é insuportável. O corvo fica voando em círculos ali, o que ele quer que eu faça. Nunca vi um corvo no chão, mas esse resolveu me mostrar o que queria de mim. E ficou parado ao lado de um cadáver. Não teve jeito me aproximei e ele pulou pro meu ombro, fiquei olhando aquele corpo sem vida até tomar coragem para tocar nele, devia ter alguma coisa naquele ser que o corvo queria me mostrar ou que eu pegasse. Quando virei o cadáver de barriga pra cima vi que uma das mãos estava fortemente fechada, tive que abrir dedo por dedo até encontrar um pedaço de papel onde estava escrito um tipo de poema, não sei bem. E era endereçado a mim. Dizia mais ou menos isso: 

Siga em frente,
não tenha medo
dispa-se de sua mortalha
atravesse os portais
Anjos e Demônios
convivem entre nós
Dê o próximo passo
Abrace sua essência
Arranque suas máscaras
Aqui não é lugar 
de mentiras.
Saiba que a partir de agora
Tudo e nada
são complementos um do outro.
Não há somente um Deus
Somos estrelas
Brilhe
Sem medo
Siga seu destino.

Quando acabei de ler o corvo saiu do meu ombro e parecia sorrir. Acordei com a sensação de ter encontrado uma resposta para uma pergunta esquecida.




2 comentários:

☠Neith War☠ disse...

Perfeito!
Você teve uma ajuda e tanto!
É bom saber que mesmo em lugares distantes temos nossos guias, e assim continuamos nossa busca pela verdade, a "nossa verdade".

"Feliz daquele que têm total poder sobre seus demônios." (N.E)

La Rosa Carla disse...

Neith... Concordo quanto aos guias! Sobre os demônios, ainda estou pensando no que escreveu, não sei se tenho total poder sobre os mesmos, mas sei que nos damos bem rsrsr