segunda-feira, 30 de abril de 2012

Guardião


Durante muito tempo tive medo de sonhar. Temia encontrar o pesadelo vivo e pulsante. Com o passar do tempo entendi que o medo era infundado. Que ao adentrar o terreno dos sonhos era livre das amarras que me impunha. Encontrei monstros, Deuses, Demônios e mais uma gama de seres que não conseguiria descrever agora. Com cada um aprendi algo. Tive por perto um guia sempre atento e gentil. Mutas vezes ele não aparecia nitidamente mas eu sabia que estava ali, podia senti-lo.

Até o dia ou a noite, que encontrei o pesadelo vivo e pulsante. Para a minha imensa surpresa encontrei a mim mesma. Não era um espelho ou algo assim era eu me vendo sem hipocrisia. E travei comigo um diálogo pra lá de interessante:

- Quem é você?

- Sou você e eu.

- Como assim? Que palhaçada é essa?

- Sou eu sem amarras, sem a maldita hipocrisia, sem falso pudor ou mesmo querendo ser "boazinha".

- Você está dizendo que sou hipócrita e todo o resto?

- Responda a si mesma. Sou ou não sou isso e muito mais??

Estava horrorizada comigo e com quem estava a minha frente, estava ponderando a resposta quando ela me diz na lata:

- Já sei vai tentar iludir-me com belas e ensaiadas palavras. Mas vou lhe adiantar aqui está somente consigo própria, então porque usar de meias palavras?

Estava me exasperando e indaguei já com um certo sentimento de raiva aflorando:

- Quem você pensa que é? Qual o motivo para essa encenação? E o que ganha com isso?

A outra eu com um sorriso torto e meneando a cabeça, como eu faço quando me sinto contrariada, respondeu:

- Oras bolas porque está querendo atacar-se? Não suporta a verdade? Não quer dar o próximo passo? Encare a você mesma usando o que chama de verdade e justiça. Afinal, essas são suas palavras preferidas, fora umas outras que ainda poderia citar...

Sem perceber estava frente a frente comigo e já inquirindo:

- Quais outras palavras? O que pensa que sabe sobre mim?

Então ouvi minha gargalhada se expandindo por aquele ambiente até que me encolhi com medo de mim. Que sensação estranha. Alguém já sentiu medo de si mesmo? Posso afirmar que é pavoroso...

Então eu respondo minha pergunta, enumerando nos dedos que são meus e ao mesmo tempo parecem não ser:

- Amor, ódio, medo, coragem, inveja, rejeição, aceitação, inferioridade, superioridade, felicidade, infelicidade. Tudo sempre dual, poderia continuar infinitamente mas, acredito que já tenha entendido, ou não?

- Sim entendi, sou tudo isso mesmo. Há horas em que sou anjo e horas em que sou demônio. Nunca neguei isso. Então não há nenhuma novidade.

Então me olhando nos olhos percebi que havia sim e continuei conversando comigo mesma agora tentando entender porque eu havia me separado, qual o motivo que me levara a isso, quando senti um sorriso em nossos rostos e a minha outra eu começou a explicar:

- Todo ser é dual. Isso já aprendemos. O que quero aprender agora é a dominar minhas emoções para que eu as sinta e elas não me dominem. Quero sentir ódio sem me recriminar por isso. Sem me julgar inferior aos outros. Quero sentir meu prazer sem carregar a culpa. Quero me aceitar como sou, cansei de me sabotar, de me rejeitar porque não sou o que outros querem que eu seja. Quero ser eu. Mereço entregar a mim mesma o ser que sou. Chega de tentar me explicar aos outros, independente de serem família ou não. Todas as vezes em que fiz isso me sabotei e acabei me magoando. E com isso me desprezando. Estou pronta para o próximo passo. Estou mesmo.

Então sem que eu esperasse houve uma fusão entre as duas eus. De repente não olhava mais para mim mesma. Estava novamente inteira. Era eu de novo. Gargalhei e gritei até ficar sem voz. A sensação de liberdade foi maravilhosa. Havia me esquecido como é se sentir livre. Agora que estava reintegrada em mim tudo parecia mais intenso e vivo.

Quando meu guia apareceu, ele sorriu e me estendeu as mãos. Fui até ele e peguei suas mãos com suavidade. Ainda sorrindo me mostrou para onde devíamos ir. Caminhamos durante um bom tempo em silêncio, e eu aproveitando para tentar registrar mentalmente o que via, quando ele falou:

- Não queira reter nada, somente sinta e reaja. Aqui não é necessário reter coisa alguma.

Eu sem conseguir me conter e confesso morrendo de curiosidade perguntei:

- Por que só agora você resolveu aparecer? Por que não antes?

Ele sorrindo sempre respondeu com candura na voz melodiosa:

- Sempre estive aqui, muitas vezes me percebeu, intuiu ou sentiu. Se agora me vê é porque somente hoje está receptiva a mim. Não me escondi ou algo do gênero. Já se perguntou se não preferia me ver?

Fiquei pensando no que ele havia dito sem responder. Porque na verdade aquela pergunta me fez olhar para trás e perceber que ao me afastar de mim também havia me afastado dele. Então realmente não poderia ver algo que eu negava com veemência.

- Sim você tem razão. Passei tanto tempo tentando ser outra pessoa que quase me perdi nos meus próprios labirintos. Neguei durante tanto tempo quem sou e o que sou por medo de mim mesma.

- Isso mesmo seu pesadelo vivo e pulsante era você mesma, em essência. Todo o resto é pura enganação para te manter longe de si mesma.

- Tem razão. Agora me responda quem é você? Ou o que é?

- Sou um Guardião! Posso servir como um guia em suas viagens por seus mundos e mesmo outras dimensões mas, essencialmente sou um Guardião.

- Guardião? Como assim?

- Protejo suas viagens como já comentei e também conheço intimamente seu espírito. Sou aquele por quem chamas a cada vez que se sentes perdida por paragens estranhas. Posso ser teu amante, teu demônio, teu anjo ou mesmo aquele que você não nomeia. Esse sou eu. Conheço cada pensamento teu, cada desejo, cada experiência, cada maluquice como você mesma diz. Estou, estive e sempre estarei contigo. Ajo de várias maneiras e nem sempre como esperarias que agisse. Sou livre mas ao mesmo tempo sou prisioneiro do seu mundo. Guiei teus passos por muitos caminhos, mesmo quando negavas a minha existência ou quando não sabias de mim. Sou aquilo que buscas e temes ao mesmo tempo...

Enquanto ele me dizia aquelas palavras seu corpo ia assumindo várias formas, várias faces. E eu estava deslumbrada. Simplesmente fiquei ali admirando aquele ser único. Nutrindo por ele um amor que até então desconhecia completamente... De repente ele se aproxima e recebo um beijo suave. E então desperto ainda sentindo aquele olhar pousado em meus olhos...


2 comentários:

☠Neith War☠ disse...

Maravilhosa descoberta pela qual temos a necessidade de passar para só então sermos inteiras...Talvez a sociedade prefira meias pessoas, afinal é mais facil domar pessoas pela metade com todas as suas inseguranças, aprendemos desde cedo a negarmos a nós mesmos, mas ainda bem que contamos com esta força oculta, esta força que nos move e muitas vezes nos faz sair deste casulo para sermos borboletas! Adorei! Me identifiquei! te adoro!

La Rosa Carla disse...

Não é fácil mesmo Neith, e muitas vezes nem prazeroso mas, vale a pena a cada vez que conseguimos nos conhecer mais....