quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Dois


Ela sonha... Ele tem pesadelos...
Mundos tão diferentes e ao mesmo tempo tão próximos.
Ninguém sabe como eles se conheceram.
Talvez algum deus brincalhão os tenha posto frente a frente em uma noite chuvosa, quando a moça estabanada levou um tombo daqueles.
Talvez alguma deusa do amor tenha resolvido atender as preces do moço tão arredio em assuntos de amor.
Só se sabe que de repente eles estavam lá frente a frente, enquanto a chuva caia e inundava tudo ao redor. Eles nada sentiam só o estrondo de seus corações. Enquanto ele a ajudava a levantar e ela agradecia. De repente eles começam a rir da situação e se sentem aliviados. Caminham juntos sem guarda chuva, porque com certeza o dela se perdeu e ele nem se lembrou desse detalhe. Ele a conduz suavemente pelo braço e pela primeira ela não retira o braço e pensa:
- Gosto do toque dele.
Ele pergunta depois de várias centenas de metros em silêncio:
- Metrô ou ônibus?
Ela o olha como se ele fosse um extraterrestre, até entender o que ele estava querendo dizer. Então olha ao redor procurando referências do lugar onde eles estão e diz:
- Nenhum dos dois. Já estou perto de casa. Obrigada pela ajuda.
- De nada! Tem certeza que está tudo bem? O tombo foi feio. - Ele sorri.
- Tenho. Já estou acostumada, sou desastrada. - Sorrindo
Eles continuam andando até que a moça para em frente a um prédio, estende a mão à guisa de comprimento ele a toma e dá um passo a frente. Então lhe dá um beijo no rosto. Ele fica ali até ela entrar e fechar a porta... Depois segue seu caminho. Quando se dá conta que mora a poucas quadras de distância dela. Ele ri e diz consigo mesmo:
- Mas que coisa mais louca! Somos vizinhos e nem sabíamos...
Entra no seu apartamento, vai para o banho já que está todo encharcado. Com a toalha na cintura vai até a cozinha prepara um pouco de chá, fica perambulando pelo seu canto, pensando, quando decidi ouvir música. Liga o computador, escolhendo as sua preferidas. Seus pensamentos estão naquela mulher estabanada e desastrada mas, o que vem a sua lembrança nada tem a ver com esses adjetivos e sim com aquele sorriso...
Entrando em casa ela também foi pro banho. Depois fez café, pegou sua xícara e foi para seu cantinho preferido, o quarto. Também ligou o computador e estava a ouvir músicas. Pensando na gentileza do homem e naqueles olhos tão profundos e sombrios.
Dois solitários em uma cidade de solitários. Nada de novo. Por fim os dois adormecem. Essa noite não será de pesadelos para nenhum deles. Eles se reencontram no sonhar... 
Ela está caminhando pela praia, a lua está maravilhosa e a noite fresca. Resolve se sentar, sente a areia e as ondas que batem em seu corpo. Adora a sensação. Quando ouve uma pergunta e se assusta:
- Já não chega de água por hoje?
Ela se vira rapidamente e sorri, reconhecendo quem fala, sorrindo responde:
- Não resisti ao mar. E é tudo tão lindo aqui...
- É verdade. - Ele se senta nas costas delas e simplesmente a abraça. Ela repousa a cabeça no peito dele e ficam ali ouvindo o mar e a noite. Eles se sentem bem, sem necessidade de palavras. 
O despertador toca ela se vira na cama procurando de onde vem o som, pega o celular e o desliga. Seu primeiro pensamento:
- Que sonho delicioso. Mas como fui sonhar com quem nem conheço? Deve ser porque ele foi a última pessoa com quem falei.
Já ele desperta sorrindo, sem precisar de um celular para o acordar.
- Fazia tempo que não sonhava. Já que pesadelos não são a mesma coisa que sonhos. Interessante sonhar com a moça desestrada, como ela mesma se define. Embora eu pense que aquele sorriso é maravilhoso. Bem é hora de esquecer os sonhos e enfrentar o dia.
Cada um deles segue sua vida, tentando encontrar um ao outro, mas os deuses parecem querer brincar com eles e nada acontece por um bom tempo. Fora os encontros nos sonhos que a cada vez ficam mais e mais interessantes. 
Ela procura entender o que acontece. Suas reflexões são um tanto estranhas:
- Guardei a sensação do seu toque e aqueles olhos que parecem ver além do que mostramos. Logo, logo esqueço isso. Mas já faz mais de dois meses que o fato aconteceu e ainda sonho com aquele desconhecido. Devo estar carente ou algo assim. Ou pior....
Ele por sua vez agradece pelos sonhos e se pergunta:
- Será que encontro aquela mulher de novo? E por que dentro de todas as que já conheci justo essa que só vi uma vez faz parte dos meus sonhos? Será carência? Ou alucinação?
E assim o tempo corre. Os dois continuam com suas vidas. Até que mais uma vez eles se encontram. Ela está sentada numa cafeteria lendo quando ele entra. Quando ele percebe quem está ali simplesmente se aproxima e pergunta:
- Posso me sentar com você?
Ela levanta a cabeça e sorri.
- Que surpresa! Claro, por favor.
- Bem agora devo me apresentar já que não o fiz quando nos encontramos a primeira vez. - Ela ri e concorda.
- Meu nome é Max.
- O meu é Regina. Prazer Max.
- O prazer é meu. Tenho de confessar algo que pode parecer completamente insano.
- É mesmo? O que seria?
- Tenho sonhado com você desde aquela. - Ele parece meio perdido, talvez com medo que Regina pense que é maluco.
- Engraçado o mesmo acontece comigo. E também não consigo entender o porque.
- A praia? Sonhou com a praia?
- Sim. E nós sentados abraçados admirando o mar...
- Confesso que prefiro esses sonhos de agora. Antes só tinha pesadelos.
- Sonhava antes, mas era algo sempre difuso e muitas vezes não me lembrava do que havia sonhado mas, desde que esses sonhos começaram me lembro de todos.
- Será que estávamos nos procurando?
- Talvez. - Ela diz meio sem graça. Não querendo admitir que procurou por ele.
- Tenho certeza que estávamos. Admito que procurei por você, só que todas as vezes em que estava a ponto de perguntar para o porteiro do seu prédio pensava comigo, nem sei o nome dela. E não posso falar que ela é estabanada ou desestrada. E também não posso descrevê-la só por seu lindo sorriso.
Novamente Regina ri e por sua vez comenta:
- Fiquei pensando em como encontrar você também mas, nem sei onde mora e minha única descrição sobre você seria, o homem de olhos profundos e sombrios...
Os dois riem gostosamente. As mãos se procuram e se tocam. Então acontece o beijo, tantas vezes já sonhado... Aqui começa mais uma história...

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