domingo, 10 de fevereiro de 2013

Destruição


Ele está lidando com seu jardim, brincando com o seu cão. Quem o visse pensaria que é um homem comum, nada demais. Só teria de tomar cuidado com seus olhos. Ele é alto, forte, é barbudo e ruivo. É alguém que dá gosto de se olhar, mas seguramente deve-se manter distância dele. Ele é a ovelha negra da família. Abandonou seu reino há muitos séculos. Perambula por aí criando, fazendo arte, construindo. Adora colocar a mão na massa. Mas, não foi sempre assim, uma noite há alguns anos atrás esse homem misterioso me encontrou completamente desorientada e me permitiu repousa na choupana dele. Para passar o tempo resolveu me contar sua história e eu parecendo uma criança ouvia tudo em um silêncio reverente. E agora o vendo trabalhar naquele jardim posso sentir o quanto ele não quer mesmo voltar para o seu reino embora ame seus irmãos que vieram aqui recentemente o procurar. Ele tentou se esconder, mudar de cidade, essas coisas que ele sempre faz quando sente que eles o procuram, só não fez isso porque comentei com ele que seria uma pena deixar aquela casinha tão aconchegante e o jardim que meu amigo queria tanto refazer. Então ele se sentou e esperou seus irmãos. Quando eles chegaram a comida estava pronta, o cheiro dos pães estava no ar e o também aquela sensação de que algo iria mudar. Embora soubesse com quem estava dividindo a casa não quis estar presente quando a família dele chegou. Antes de sair ele ainda me falou:
- Mas você os conhece e não é de hoje.
- É verdade mas não quero estar aqui já que é uma conversa familiar.
- Você irá muito longe? - Ele me pergunta meio preocupado.
- Não daqui a umas quatro horas devo estar de volta.
- Por que tanto tempo?
- Há quanto tempo não conversa com eles?
- Séculos!
- Então quatro horas não será nada!
Ele se aproxima e me abraça, um abraço fraternal recheado de carinho e de cuidado. Deposito um beijo no rosto dele e saio... 
Quatro horas se passam, só que pra mim elas pareceram uma eternidade. Estava preocupada com ele, meu coração estava apertado e estava completamente alheia ao que se passava ao meu redor. Entrei em casa com cautela. Afinal ele poderia ter partido e o que teria ficado para trás? Não queria pensar nisso mas não conseguia não pensar. Passei pela cozinha e nada. Na sala, nada também. Comecei a ficar impaciente. Subi as escadas e parei entre os quartos... Indecisa. Deveria bater na porta dele? Fiquei ali sem saber o que fazer e a porta se escancarou. Ele estava sentado na cama em um silêncio sepulcral. O que não era natural nele. 
- Como foi?
- Eles queriam que eu voltasse.
- E? - Perguntei com medo da resposta.
- Se eu fosse embora você sentiria a minha falta?
Caminhei até a cama e me sentei ao lado dele e o abracei perguntando:
- Você ainda pergunta?:
Ele riu me abraçando também e diz?
- Pequena nunca sei o que você irá fazer ou mesmo que pensa.
- Digo o mesmo sobre você, Senhor Destruição! Agora me conte tudo o que aconteceu e a sua decisão.
- Bem a história é um tanto longa.
- Eu tenho tempo!!
- Tudo bem, você sabe que estou aqui porque não quero mais destruir e sim construir. Sabe também que fugi do meu reino por querer conhecer como vocês viviam. E que estou aqui faz muito, muito tempo. Então podemos pular essa parte certo?
- Quero entender por que decidiu mudar? O que motivou essa decisão?
- Engraçado meus irmãos me fizeram a mesma pergunta e vou te dar a mesma resposta que dei a eles.
Então me deitei na cama e ele começou a falar:
- Cada um de nós tem uma função e durante muitos milênios nenhum de nós se questionou, ou melhor eu penso que não, mas posso estar errado. Então comecei a ver que tudo no universo segue um ciclo. Tudo nasce, vive e morre. Tudo se transforma. Algumas vezes a Destruição vem por meio da guerra, outras pelas invenções, outras ainda porque um ser humano resolve fazer questionamentos sobre o que os outros calam. Mas mesmo assim é tudo um ciclo. Acompanho a vida desse universo desde os primórdios. Destruição sempre esteve presente. Então meu trabalho era relativamente fácil digamos assim. Mas com o passar das eras, a humanidade foi mudando, não digo evoluindo, porque isso é só uma palavra que vocês inventaram, para justificar seus medos, fracassos, acertos e todo o resto. Não sei exatamente quando cansei de destruir, mas cansei. Fazer ruir impérios, modificar a geografia do mundo, notar que os seres se destruíam sem a minha ajuda talvez tenha sido o que me fez parar e prestar atenção. A humanidade não precisava mais de nós, dos Sem Fim, dos Perpétuos. Ela já havia destruído e construído várias e várias vezes. Minha espada não era mais necessária como uma arma ou mesmo um símbolo. Então decidi me aventurar pelo mundo de vocês e conhecer o que chamam de vida. No princípio me senti estranho e meio deslocado. Então fui aprender pintura e me maravilhei, e várias outras coisas. Aprendi muito com muitas pessoas através desse tempo todo. E a cada nova aventura a humanidade me surpreendia e de certa forma me deixava com um quê de dúvida. E a dúvida vinha da dependência de vocês, da fé, dos deuses ou do deus tanto faz... Isso me deixava irritado na verdade. Pensava comigo eles constroem, destroem, inventam, reinventam. Por que precisam de deuses ou mesmo de um só? Essa pergunta sempre esteve na minha mente. Passei a viajar, queria entender essa necessidade. Em uma dessas viagens, me chegou a iluminação, como vocês dizem: A humanidade necessita do acreditar, do crer em algo superior a ela. Porque se algo dá errado é culpa dos deuses. E quando algo dá certo ela tem a quem agradecer. Na verdade essa iluminação me mostrou que mesmo eu não querendo ser mais Destruição, meus irmãos, cada um em seus reinos tem o seu porque. Então simplesmente apaguei da minha memória essa iluminação e continuei por aqui. Não queria como não quero voltar. A humanidade não precisa de mim. Ela mesma destrói e constrói sem a minha ajuda ou mesmo a minha permissão. Embora vocês estejam ainda muito longe a própria Divindade, caminham para isso, talvez em um futuro longínquo descubram isso ou não. Na verdade isso não importa. Entre vocês descobri também sensações e sentimentos que no meu reino seria quase impossível descrever. Descobri que mesmo estando longe da minha família nosso vínculo não se perde. Noto quando um deles está por perto, sinto a chegada deles como aconteceu hoje. E embora queira estar junto a eles não quero empunhar minha espada e muito menos reinar no meu castelo. Nossa conversa não foi fácil. Mas no fundo acho que eles pelo menos entenderam minha postura e o castelo continuará vazio. Só as vezes me dá vontade de voltar...
- Quando sente essa vontade? - Minha curiosidade agora falou mais alto.
- Quando meus amigos morrem, quando minha amada morre. Essa transitoriedade de vocês me deixa sem chão as vezes. Com o tempo fui aprendendo a lidar com isso mas, ainda hoje é difícil.
- Bem somos mortais e morremos. Alguns acreditam que renascemos. Outros não. E você no que acredita?
- Acredito que tudo muda, se transforma. Que daqui a uns milênios irei reencontrar você. Ou quem sabe daqui a uns cem anos... Vocês vem e vão em um contínuo aprendizado sobre si mesmo. Não dou um nome a isso, só sei que é assim. Talvez vocês chamem de renascimento, talvez deem outro nome, não importa. O que sei é que quando um de vocês parte leva uma parte do meu coração. E isso dói. Então quando os reencontro tenho de tomar cuidado para não despertar memórias do passado. As vezes sinto que a vida de vocês é uma parte de mim. Não consigo explicar.
- Não precisa eu entendo.
- Então me explica, por que eu não consigo entender, somente sinto.
- Simples. Nascemos e morremos. Isso é Destruição também. Veja ao nascer destruímos o corpo da mãe, rompemos a bolsa, e respiramos pela primeira vez. Passamos nossa vida mudando, e portanto, destruindo o passado para construir o futuro. E um belo dia chega a morte... O corpo é destruído e volta para a terra que irá reconstruir com ele a si mesma. Como você bem disse é um ciclo eterno. Vivemos destruindo e construindo, mesmo na morte. Por isso você se sente tão ligado a nós. E nós a você. Somos parte um do outro na enorme tecitura da Vida!
- Pequena você me faz bem.
- Digo o mesmo em relação a você.
- Fico feliz com isso. - Diz ele rindo e depois ele se levanta e me mostra a espada.
- O que fará com ela?
- Vou guarda-lá. Ela irá nos proteger se um dia for necessário.
- Então você não vai embora?
- Claro que não ainda tenho muito que aprender e construir por aqui.
Ele sorri e olha para o jardim através da janela. Se dirigi para a porta e diz:
- Quem sabe um dia te leve até o meu castelo.
- Já o conheço.
- Como assim?
- Ele está aqui em meu peito a cada inspiração e expiração.
- Você tem razão. Assim como você está em meu peito. Durma Pequena, porque amanhã teremos muito o que fazer. Repouse para construirmos mais um capítulo da nossa vida em cima do que foi destruído...
Destruição sai do quarto com um sorriso bailando nos lábios. Sereno e forte como só ele sabe ser.


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