quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Noite


A noite se faz mais uma vez.
Sinto dentro de mim um pulsar intenso.
Pressinto tua chegada.
O recinto está pronto para nós.
Velas, cetim, vinho e nudez.
Quando adentras meu templo estou de joelhos.
Não por ser menos do que tu e sim para lhe dar prazer.
Isso me satisfaz, me anima e me dá um tesão
que poucas conseguiriam entender.
Sou como Lilith, mas somente para ti.
Despertas em mim algo tão abissal, tão profano
e sagrado que somente percorrendo teu corpo
posso serenar e voltar a respirar.
Se já tive minha parcela de Eva,
ela foi devorada por tuas mordidas,
tuas mãos e teus avanços por este templo.
Mexo e remexo.
Em cima e embaixo.
Fora e dentro.
Novos ângulos descobertos a cada anoitecer.
Por vezes penso que a noite é muito curta.
Durante o dia caminho por aí,
sem destino certo e passo despercebida.
Não me importo.
Sorrio comigo pois trago tuas marcas em cada pedaço de mim.
Sinto ainda as mordidas, há lugares tão sensíveis em mim
que ao me sentar tenho de tomar um certo cuidado.
Os outros pensam que sou uma dama!
Sou obrigada a me dominar para não gargalhar perante eles.
Se soubessem a grande puta que sou me olhariam com desprezo,
mas lá no fundo querendo me ter.
Hipócritas isso o que são.
Olho para o relógio, novo sorriso.
Logo a noite chega.
Logo estarei em teus braços, em teu peito.
Usar a capa da normalidade me cansa
e ao mesmo tempo me faz rir.
Por que tanta competição?
Por que as mulheres não podem simplesmente
trocar figurinhas entre si para aprenderem
a extrair prazer de si mesmas e dos seus parceiros?
A eterna guerra entre Eva e Lilith.
Uma sempre tão cordata, tão certinha,
tão ensinada ao que deve ou não fazer,
nunca saindo do papel que lhe deram.
Sempre com um sorriso estúpido nos lábios.
E em algum lugar escondido dentro dela,
um desejo insatisfeito, um clamor por algo mais.
Só que ela não sabe o que pode ser esse algo mais.
E o medo a paralisa.
Pobre Eva!
Já a outra, sedutora, conhecedora do próprio corpo
e desejando se dar e ter prazer.
Forte e assustadora.
Nem sempre compreendida.
Quando dizem que ela é uma prostituta.
Ela ri descaradamente.
E diz sou sim.
Porque quero e posso ser.
Ela vai até o raiar da insanidade pelo prazer e dor.
Nada é proibido.
Nada é pecado.
Ela nem reconhece essa palavra.
Sempre querendo mais e dando mais em troca.
Prefiro ser Lilith, sempre.
Ousar ir além do que conheço.
Experimentar prazeres novos e antigos.
Então meu quarto vira templo.
Sou teu templo, assim como és o meu.
Desejos confessos e realizados.
Não preciso me esconder,
contigo sou sempre eu.
E nisso reside nossa magia.
Nosso amor.
Nosso prazer.
Assim caminho.
Observando a mim e aos outros.
Percebo como estou diferente
e ao mesmo tempo ainda a mesma.
Falta muito para o anoitecer?
Pois, já sinto aquela pulsação típica
que me avisa da sua presença.
Sorrio, sabendo que esta noite,
no final dela,  estarei plena de gozo.
Não só o carnal.
O espiritual também
vem através dos nossos corpos.
Sorrio por saber que meu coração pulsa
no mesmo ritmo que o seu!
Está noite teremos maças para brincarmos...

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