quarta-feira, 9 de maio de 2012

Mundo estranho


A noite passada eu morri! É sério! Morri! Atravessei o abismo e quase me perdi nele.
Era mais uma noite normal, daquelas chatas e sem nada pra fazer.
Depois de ser obrigada a assistir televisão pelo bem do equilíbrio familiar, enfim decidi ir dormir.
O dia havia sido calmo e frio. Nada de anormal, nada que me preparasse para o acontecimento.
Fiz minha meditação. Visualizando cores até que uma tomou todas as outras, o negro ou preto. Mas não era qualquer um não. Era como a escuridão mesmo. Senti o impulso de parar com aquilo mas algo em meu interior se agitou como me prevenindo contra minha atitude.
Deixei o medo serenar, ele ficou ali por perto, espreitando. Então a escuridão tomou conta de mim. E me senti caindo dentro dela. Aquilo parecia não ter fim. De repente eu também era a escuridão e por vezes conseguia discernir pontinhos que brilhavam aqui e ali. Não me detive, acho que nem conseguiria mesmo que desejasse. A queda era vertiginosa. Mas não havia dor. No começo sim talvez pelo condicionamento não sei explicar.
Então ouvi um baque e meu corpo inteiro estava retesado e dolorido. Olhava ao redor e só conseguia vislumbrar novamente aqueles pontinhos. Pensei talvez sejam almas errantes assim como eu. Tentei me levantar e não consegui, sentia um peso enorme me prendendo, asfixiando. Tentava respirar e nada. Quando um estalo me fez perceber que eu estava morta.
Só que não quero isso! Não aceito morrer assim. Tudo bem morrer dormindo é legal mas não essa não é minha hora. Então reuni toda minha vontade para encontrar uma saída dali. Só havia um detalhe, onde era ali?
Olhei para cima e só vi escuridão, para os lados a mesma coisa e por incrível que pareça para baixo era a mesma coisa. Estaria eu dentro de um cubo negro ou algo assim?
Comecei a centralizar minha inspiração e expiração. Visualizando os chacras e suas cores. Com isso consegui me acalmar. Cheguei até a ouvir uma música suave. De repente estava envolvida por uma esfera de luz. Por vezes essa luz era violeta, vermelha ou preta. A cor predominante foi a variação do violeta indo até o roxo intenso.
Consegui me levantar com muito custo, todo meu corpo doía, parecia que havia levado uma surra daquelas. Perambulei por aquelas bandas na esperança de encontrar alguém mas, nada feito. O universo parecia vazio e desprovido de vida. Segui andando quando notei que o medo havia passado por completo. Estou em um lugar solitário onde não há luz alguma e não sinto medo. Muito estranho, mesmo para mim.
Quando ouço um som! Como um trovão ou um estouro de manada ou algo por aí. Um som forte, audacioso, assustador e ao mesmo tempo maravilhoso. Sem pensar vou naquela direção e quando dou por mim estou correndo velozmente.
Paro ao me deparar com um ser inacreditável, penso comigo mesma isso só pode ser sonho, estou vendo um dragão, só posso estar sonhando ou morta mesmo. Dou mais alguns passos uma vontade maior que eu me impulsiona para aquele ser. Não consigo definir sua cor. Embora seja negro como a escuridão que me cerca por momentos é claro como o dia. Ele oscila entre as cores. E eu estou embevecida com aquela visão. Então dentro da minha mente algo começa a falar, penso mais uma vez estou louca, morta ou sonhando, tento desviar a atenção quando ouço:

- Criança porque essa incredulidade que não é típica de ti?
Respondo sem pensar:

- Não sei mais o que sou e nem onde estou. Tudo isso parece loucura.

 Então vejo os olhos do dragão e entendo que é ele quem fala comigo. Devo ter feito a expressão facial mais estranha do universo porque ele me diz:

- Sou o que buscas desde sempre, então por que a incredulidade?

- Não sei. Onde estou?

- Estás no abismo, adentraste o reino da Morte para poderes saber quem és.

- Mas a minha meditação dessa noite não foi direcionada a isso.

- Não, não foi. Mas, sua real vontade é essa. Então você chegou aqui. Agora precisas subir a superfície e despertares. Estarei contigo.

- Como farei essa subida? Se nem sei como cheguei aqui?

- Fácil usa tua intuição e segue teus instintos. Assim não terás como erras.

Aí tomando coragem perguntei:

- Posso tocá-lo?

- Claro que sim, já que sou parte integrante de você.

Ao tocar o dorso do dragão senti uma onda de energia indo e vindo dele. Era como se fôssemos ligados desde tempos imemoriais.

- Agora vai. Tua hora chegou.

Afastei-me dali a contragosto admito. Aquela energia me fez bem e decidi tentar a subida.
Foi uma árdua jornada. Por vezes pensei que não conseguiria então me vinha a mete o dragão me dizendo para seguir meu instinto e intuição.
Desviei de lugares que a energia não me fazia bem. Enveredei por outros onde a energia parecia me chamar. Em determinado momento senti sede e procurei um lugar onde pudesse beber água, encontrei um lago lindo e sereno, onde a água era de um azul tão intenso, fiquei ali um tempo enorme somente admirando aquela cor e matando minha sede.
Segui viagem, sentia que estava me aproximando da terra, não dá para explicar como só senti. Então me vi diante de um rochedo imponente que escalei quase sem fôlego ao chegar ao cimo. Vislumbrei o céu límpido e me sentei na grama sentindo o aroma como nunca havia feito antes.
Ao olhar novamente para o céu tive uma vontade irresistível de voar e consegui sentir asas se abrirem e me joguei, voando livre por paragens que poucos teriam a oportunidade de ver e sentir. Subi tanto que do meu ponto de vista tudo era pequeno como miniaturas, tudo tão lindo.
Forcei-me a voltar sabia que ainda não havia terminado minha jornada. Guardei minhas asas, sabendo que poderia usá-las sempre que quisesse.
Segui em frente. Mais lá na frente me deparei com algo intensamente vermelho que irradiava calor. Não sei bem como definir aquilo. Só sentia a presença e o calor. Algo em mim me fez continuar a caminhar, mesmo sabendo que teria de forçosamente passar onde o calor do que me pareciam várias fogueiras queimando estava, então sem alternativa ou mesmo vontade de tentar outro caminho segui em frente.
Para minha enorme surpresa o calor não me queimou e até me senti reconfortada por ele. Senti em meu coração que estava perto do fim dessa jornada, virei-me e agradeci a todos os seres que fizeram parte dela e especialmente ao dragão.
Percorri mais alguns metrôs quando me deparei com uma saída incrustada em um árvore. Antes de sair mais uma vez agradeci.
E ouvi em meu espírito:

- Estamos sempre juntos, somos um só. Bem vinda de volta ao lar, criança.

Um comentário:

La Rosa Carla disse...

Em um primeiro momento assustador diria eu depois... Uma delícia e que me deu nova coragem