segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Noite estranha


Já se faz noite novamente. Meu corpo cansado quer repousar. Permitir ao meu espírito ir ao encontro de seus iguais. Depois de um banho refrescante me sento na beirada da cama e começo minhas mentalizações e meditações. Mas hoje algo diferente desperta em mim. Uma ansiedade que pensava não mais existir. Uma necessidade de me precipitar no abismo. Termino o que comecei. Deito e me lembro de uma canção. Na verdade de uma melodia. E fico repetindo até cair no sono. Não há palavras, somente um resquício de som. Esses sons embalam meu sono. Desperto em um lugar diferente, ainda é noite, caminho pela sala mas estranhamente embora reconheça o lugar sei que não conheço, pelo menos não quando estou desperta. Vejo ao fundo uma janela enorme e vou me aproximando quando encosto no que deveria ser a vidraça caio, sinto o corpo flutuar naquele espaço infinito e indomável. De repente me assusto e penso, mas estou caindo, quando me dou conta olho para baixo e vejo o abismo sem fim. Estranhamente, não sinto medo, só uma curiosidade que me impulsiona e a queda fica mais rápida. Encontro um pedaço de madeira, uma raiz na verdade e a agarro, consigo com muito esforço sair do abismo que me puxa para ele. Resisto e devo admitir que foi muito difícil isso. Saindo dali me deparo com um estranho homem que está parado ali como se fosse a coisa mais natural do mundo. Vou me aproximando meio cautelosa e meio curiosa. Ele me olha mas parece não me ver. Quando enfim nos encontramos ele diz: Pensei que nunca chegaria aqui. Minha vontade foi sair dali sem ao menos lhe dedicar um segundo olhar, mas algo nele me avisou, para ir devagar. Nele a agressividade era muita intensa e ao mesmo tempo daquele corpo emanava uma sensualidade que me fez cambalear. Ele então se aproximou e estendeu a mão. Ao tocá-lo a descarga de energia entre nós foi como quando as tempestades desabam sobre o campo. Ele me contou que estava a me esperar pois sabia que chegaria ali naquela noite. Imediatamente perguntei: Como sabia? Com um sorriso irônico respondeu: Eu te conheço. A cada vez que ele proferia essa frase sentia ímpetos de esmurrá-lo. E parecia que ele sabia disso, pois seu sorriso ficava ainda mais irônico. Continuamos a caminhar agora por um algo que lembrava um jardim. Quando nos afastamos dali, ele decidiu abrir a boca para me contar aonde estávamos indo. Devíamos atravessar a floresta para encontrar um animal com o qual eu me identificasse. Eu parei. Não conseguia dar um passo. Como assim um animal? Que história era aquela? Dessa vez ele não sorriu. Só me apontou a saída do jardim e disse que me esperaria ali. Olhei para aqueles olhos e senti que mesmo não estando onde eu pudesse tocar, ele estaria comigo, estranho?? Sim, bizarro na verdade, mas isso me deixou mais calma e confiante. Entrei na floresta. Os sons eram diferentes, em determinados momentos eles pareciam sumir e depois povoam tudo com uma tal intensidade que era como se o som emanasse do meu ser para a floresta. De repente percebi que havia um caminho que não havia notado. Segui por ele. A lua estava magnífica. O medo acabara. Fazia parte daquela floresta, era como se conhecesse cada pedra, planta, árvore, riacho, rio e isso me dava conforto. Sentei no meio da clareira para esperar que o animal se apresentasse e de novo me veio aquela melodia que passei a repetir, sem palavras somente som. Vi passarem por mim formas etéreas, senti o calor de outras, o cheiro de terra de algumas e o gosto de água pura. Era tudo tão delicioso que por mim não sairia mais dali. Sem que me apercebesse estava deitada no chão brincando com as sombras que a lua fazia na vegetação e na rochas, tudo tão natural, aquilo me lembrava minha infância. Aí me lembrei que o homem me esperava e o que viera fazer ali. Tinha que encontrar um animal. Mas ainda não havia visto nenhum. Bem o jeito era voltar já que estava ficando tarde. Levantei-me, dei as costas a floresta para fazer o caminho de volta. Já dera alguns passos quando não sei de onde apareceu uma coruja enorme e um corvo... Estranhos animais. Um tão diferente do outro que por um momento pensei não ter visto direito. O corvo então deu voltas sobre a minha cabeça indo parar em uma árvore bem na minha frente. E a coruja não saiu de onde estava, ela ficava me olhando, virando sua cabeça e depois me olhava outra vez. Era de assustar. Despedi-me daquele lugar ouvindo o pio da coruja e o crocitar do corvo... Se eram esses animais que tinha de encontrar não faço a mínima idéia, mas contaria ao homem que foram eles que eu vi. Continuei a caminhar e quando estava quase no jardim... Acordei... Ainda com aquela melodia em minha mente... Que coisa persistente!!!


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